A Fascinante Jornada da Palavra de Deus: Como as Traduções da Bíblia Moldaram Nossa Fé

Introdução Você já parou para pensar no caminho que a Bíblia percorreu até chegar em suas mãos, lida em português?

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Introdução

Você já parou para pensar no caminho que a Bíblia percorreu até chegar em suas mãos, lida em português? O livro que alimenta sua espiritualidade, conforta seu coração e desafia sua mente não foi escrito da noite para o dia, nem em uma única língua. Ele é fruto de um processo longo, cheio de desafios, escolhas e até controvérsias — tudo movido pelo desejo de tornar a Palavra de Deus acessível a diferentes povos.

Neste artigo, vamos explorar a rica história das traduções bíblicas a partir de um documento que nos leva desde o hebraico original até as versões modernas. Veremos como a primeira tradução grega (a Septuaginta), a famosa Vulgata latina e as decisões de líderes como Jerônimo e Lutero influenciaram diretamente a Bíblia que lemos hoje. Mais do que um simples relato histórico, esta é uma reflexão teológica sobre fidelidade, inspiração e os desafios de transmitir uma mensagem sagrada através de línguas e culturas.

Prepare-se para uma jornada que une antiguidade e vida cotidiana, mostrando que cada palavra que lemos carrega séculos de história e um convite à humildade diante do mistério da Revelação.

A Primeira Grande Tradução: O Nascimento da Septuaginta

Quando a Diáspora Exigiu uma Nova Língua para a Fé

A Bíblia, como conhecemos, começou a ser estruturada por volta do século VI antes de Cristo, quando o povo hebraico retornou do exílio da Babilônia. Foi nesse período que também começou a diáspora, a dispersão dos judeus por várias regiões do Mediterrâneo. Fora de Israel, esses comerciantes lutavam para conservar sua identidade religiosa, e isso estava intimamente ligado à Torá (os cinco primeiros livros), que continha um verdadeiro código legal sobre alimentação, direito penal, higiene e prática religiosa.

Uma das cidades mais importantes dessa diáspora foi Alexandria, no Egito, fundada por Alexandre, o Grande, em 331 a.C. Ali, a língua grega era falada fluentemente, como acontecia em todas as grandes cidades do Mediterrâneo. Com a dominação de Alexandre, o grego tornou-se a língua comercial da época, algo semelhante ao que o inglês é para nós hoje.

Foi nesse contexto que, no final do século III antes de Cristo, iniciou-se a tradução da Bíblia hebraica para o grego. Começou pela Torá e depois se estendeu aos demais livros do judaísmo. Em cerca de dois séculos, a versão foi concluída. Mas não parou por aí: também foram inseridos alguns livros compostos diretamente em grego, como os dois livros dos Macabeus e o livro da Sabedoria. Esses textos não tinham correspondentes na Bíblia hebraica e, por isso, não foram aceitos pelos judeus (nem posteriormente pelos protestantes, que os retiraram do cânon católico). Para os judeus, a língua sagrada era o hebraico; o que era composto em grego era considerado não sagrado ou não canônico.

A Lenda dos 72 Tradutores e a Necessidade Real

O documento nos informa sobre as origens dessa tradução por meio da Carta de Aristeias a Filócrates, um escrito grego do século II a.C. Conta-se que Demétrio de Faleiros, famoso erudito e diretor da Biblioteca de Alexandria, sugeriu ao soberano Ptolomeu II Filadelfo (que governou de 283 a 246 a.C.) que fizesse uma versão grega da Bíblia hebraica para ser guardada na Grande Biblioteca. Ptolomeu teria escrito ao sumo sacerdote Eleazar, em Jerusalém, que enviou uma cópia do texto verificada e 72 mestres para fazerem a tradução.

Há ainda outra história, relatada pelo filósofo judeu-alexandrino Filon de Alexandria (contemporâneo do apóstolo Paulo), segundo a qual os 72 sábios teriam trabalhado em salas distintas, mas produziram, por inspiração divina, uma tradução idêntica. O documento, no entanto, considera essas narrativas como “especulações históricas”. Provavelmente, a tradução nasceu da necessidade prática de tornar a Bíblia, e especialmente a Torá, acessível a uma comunidade que, afastada de Israel há muito tempo, já não lia mais hebraico.

E foi assim que nasceu a Bíblia grega dos 70 (número arredondado dos 72 tradutores), também chamada de Septuaginta. Ela se espalhou rapidamente por todas as comunidades da diáspora fora de Israel (ou Palestina, nome greco-romano dado ao território).

Quando a Tradução Revela Novos Significados

Mudanças que Falam de Contexto e Teologia

O processo de tradução não foi mecânico. Novos aspectos do contexto em que a Bíblia era lida foram introduzidos. O documento nos dá dois exemplos fascinantes.

Exemplo 1: A lei sobre o aborto em Êxodo

No original hebraico, a norma dizia que quem causasse um aborto a uma mulher durante uma briga deveria indenizar o marido, mas se a mulher morresse, era aplicada a lei de talião. Na Septuaginta, a regra é modificada: depende da condição do feto expelido. Se já estivesse formado, tratava-se de homicídio. Isso revela não apenas uma moral mais precisa, mas também o progresso da ciência médica, afinal, Alexandria do Egito tinha uma famosa escola de medicina.

Exemplo 2: A vitória atribuída ao rei em Zacarias

No hebraico, um texto dirigido ao profeta Zacarias atribuía a Deus o mérito da vitória sobre os inimigos do rei. Já na tradução grega, a vitória é atribuída ao próprio rei. Percebe-se, em ambas as passagens dos Setenta, uma possível alusão à vinda do Messias. O documento pondera: não é possível estabelecer com certeza se isso foi proposital ou casual.

Essas modificações nos convidam a refletir: será que toda tradução carrega, inevitavelmente, a marca de quem traduz e do tempo em que vive? Como discernir, então, o que é inspirado e o que é adaptação cultural? A resposta está no olhar atento e humilde para o texto original e na confiança de que o Espírito Santo também guiou esses tradutores.

A Septuaginta como Texto de Referência para os Primeiros Cristãos

Os primeiros seguidores de Jesus, em geral, falavam grego — a língua comercial da época. Eles interpretaram essas passagens como referências ao Messias e logo adotaram a Bíblia dos Setenta como seu texto de referência. Isso criou um desconforto significativo para os judeus, que permaneceram fiéis à sua língua sagrada (o hebraico). Depois de algumas tentativas de atualizar a tradução grega, os judeus a abandonaram completamente, limitando-se ao texto hebraico até os dias de hoje.

Já as igrejas orientais (Ortodoxas, Gregas, Coptas, Russas) permaneceram fiéis à Septuaginta, traduzindo-a para suas respectivas línguas. A igreja latina, sediada em Roma, tomou um caminho diferente.

A Vulgata Latina: Jerônimo e a Ousadia de uma Nova Tradução

No ano de 383, o papa Dâmaso encarregou Jerônimo de revisar as traduções latinas existentes. Nessa época, o latim era a língua do Império Romano e do Ocidente. Jerônimo, que conhecia muito bem o grego e o hebraico, estendeu a empreitada ao Antigo Testamento. Ele logo percebeu diferenças entre o original hebraico e a tradução grega, reputando-as como verdadeiros erros de tradução. Decidiu, então, realizar uma versão completamente nova a partir da hebraica veritas (a verdade hebraica).

Assim nasceu a Vulgata, a tradução da Bíblia para o latim, que rapidamente se afirmou nas igrejas ocidentais.

A Crítica de Agostinho e a Descoberta de Qumran

Jerônimo não ficou sem críticas. Santo Agostinho, bispo de Hipona, acusou-o de presunção, pois Jerônimo se considerava sozinho superior aos 72 sábios de Israel que haviam traduzido do hebraico para o grego. Agostinho, porém, não acreditava na lenda das 72 salas diferentes e esquecia que a Bíblia grega estava na base da pregação dos apóstolos, afinal, o Novo Testamento foi todo escrito em grego, o que colaborou para a rápida difusão do cristianismo.

Até a descoberta dos manuscritos do Mar Morto (em Qumran), pensava-se que Jerônimo estivesse certo. Mas ali foram encontrados exemplares bíblicos escritos em hebraico e aramaico (língua mais antiga que o hebraico) que se aproximam do texto sobre o qual deve ter sido feita a tradução dos 70. Ou seja, a Septuaginta tinha uma base hebraica mais antiga do que o texto hebraico conhecido na época de Jerônimo, que só foi fixado definitivamente por volta do século X depois de Cristo.

Essa descoberta nos ensina uma lição valiosa: nenhuma tradução é absoluta, e a história da transmissão bíblica é mais complexa do que imaginamos. Por isso, estudar os originais (hebraico e grego) continua sendo um caminho sólido e responsável.

Livros a Mais, Livros a Menos: A Questão do Cânon

O Conselho de Trento (século XVI) confirmou o valor da tradução latina (a Vulgata) para a Igreja Católica. Enquanto isso, Martinho Lutero, ex-monge católico da Ordem de Santo Agostinho, foi ainda mais fundo do que Jerônimo. Ele traduziu novamente o Antigo Testamento a partir do hebraico, deixando fora do cânon protestante todos os livros que não estavam presentes no original hebraico (os deuterocanônicos). Já o cânon católico conserva alguns daqueles presentes nos Setenta, e as igrejas ortodoxas conservam todos.

Por isso, depois do Concílio Vaticano II (o último concílio), a Igreja Católica promoveu novas traduções diretamente do hebraico, recorrendo ao grego apenas para os livros ausentes nele. O documento observa, com certa ironia, que “sob alguns aspectos, os católicos agora têm uma Bíblia comum, mais com os judeus do que com os cristãos do Oriente”.

Isso nos mostra que a Bíblia que lemos reflete decisões teológicas e históricas concretas. Não se trata de um texto “cair do céu” pronto, mas de uma Palavra viva que foi acolhida, traduzida e delimitada por comunidades de fé ao longo dos séculos.

Saudade e Outras Palavras que Não se Traduzem

Após o Concílio Vaticano II, toda a Bíblia latina foi traduzida para as línguas vernáculas. Cada país, cada língua, cada povo tem agora a Bíblia em seu próprio idioma. No nosso caso, em português.

Mas o documento nos faz um alerta precioso: muitas palavras podem ter sido alteradas. Por quê? Porque nem sempre encontramos correspondência direta entre as línguas. Muitas vezes é preciso traduzir por aproximação. O exemplo dado é a palavra saudade — que só existe na língua portuguesa. Como traduzir “saudade” para outras línguas? Aproxima-se do significado, mas nunca a tradução terá o idêntico sentido do que se expressa no interior do ser humano.

Assim também ocorre com termos bíblicos. Cada tradução contém alterações. Por isso, o documento conclui:

“Nós vamos sempre buscar os originais, tanto do hebraico quanto do grego, no hebraico para o Antigo Testamento e no grego para o Novo Testamento, fazendo assim uma caminhada mais sólida e mais responsável para as traduções dos dias de hoje.”

Essa é uma mensagem poderosa para a espiritualidade cristã contemporânea: ler a Bíblia na nossa língua é uma bênção, mas também um convite à humildade. Nunca podemos nos esquecer de que estamos lendo uma tradução. Estudar as palavras originais — mesmo que de forma modesta, com ferramentas acessíveis — nos aproxima da riqueza profunda da Revelação.

Conclusão: Uma Jornada de Fé e Fidelidade

A história das traduções da Bíblia não é apenas uma crônica de erros e acertos. É a história de como Deus, em sua providência, permitiu que sua Palavra atravessasse séculos, línguas e culturas. Começamos com o hebraico e aramaico do Antigo Testamento, depois a primeira grande tradução para o grego (a Septuaginta). Todo o Novo Testamento foi escrito em grego. Em seguida, a Vulgata latina levou as Escrituras ao Ocidente. E, finalmente, as traduções vernáculas — como o português — colocaram a Bíblia nas mãos de pessoas comuns.

Cada etapa trouxe desafios: adaptações culturais, mudanças teológicas, debates sobre quais livros eram inspirados, conflitos entre tradutores (como Jerônimo e Agostinho) e, depois, as divergências entre católicos, protestantes e ortodoxos sobre o cânon. No entanto, a mensagem central permaneceu: o amor de Deus revelado nas Escrituras.

Para você que está lendo este artigo, fica um convite:

  • Agradeça pelo privilégio de ter a Bíblia em sua língua materna.
  • Estude com humildade, lembrando que nenhuma tradução é perfeita.
  • Aprofunde-se nos originais (hebraico e grego) sempre que possível, usando dicionários bíblicos e comentários.
  • Confie que o Espírito Santo guiou e continua guiando a transmissão da Palavra, mesmo através de tradutores imperfeitos.

Ao fechar este artigo, olhe para sua Bíblia. Ela não é apenas um livro. Ela é o resultado de um êxodo de palavras, uma peregrinação através de impérios e línguas, até chegar ao silêncio do seu quarto. Que essa história inspire sua leitura e sua oração. Afinal, a Palavra de Deus é viva — e viva ela permanece, independentemente do idioma em que a escutamos.

Referências

DILLARD, Raymond B.; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução de Sueli Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2006.

FERNÁNDEZ MARCOS, Natalio. A Bíblia dos primeiros cristãos: introdução às versões gregas da Bíblia. Tradução de Paulo F. Valério. São Paulo: Paulinas, 2015.

MARAVAL, Pierre. Jerônimo: o tradutor da Bíblia. Tradução de Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1997.

MARINHO, Fábio (Padre). O Poder dos Salmos: a alma das escrituras. [Curso online]. Hotmart, [2026]. Disponível na plataforma HOTMART. Acesso em: 6 jun. 2026.

VERMES, Geza. Os manuscritos do Mar Morto. Tradução de Júlia Bárány e Maria Helena de Oliveira Tricca. São Paulo: Mercuryo, 199

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