Os Livros que Ficaram Fora da Bíblia: O que os Extracanônicos nos Ensinam sobre Fé e Discernimento

Você já ouviu falar em livros que falavam sobre Jesus, Maria ou os anjos, mas que não entraram na Bíblia?

Apócrifos
Você já ouviu falar em livros que falavam sobre Jesus, Maria ou os anjos, mas que não entraram na Bíblia? Talvez alguém já tenha mencionado o “Evangelho de Tomé” ou o “Protoevangelho de Tiago”. Para muitas pessoas, esses textos despertam curiosidade: afinal, por que ficaram de fora? Seriam proibidos? Escondidos? A resposta é mais simples e mais bonita do que parece. E nos ajuda a compreender algo essencial sobre a fé cristã.

O que são os livros “extracanônicos”?

O documento que estamos estudando nos oferece uma explicação clara: trata-se, simplesmente, de “livros sobre temas bíblicos, escritos no fim da época bíblica ou logo depois, que não entraram no cânon bíblico e provavelmente nunca tiveram perfil para isso” (KONINGS, p. 162). Por isso, o autor prefere chamá-los de literatura extracanônica – e não de “apócrifos” ou “proscritos”, termos inadequados e que carregam um peso negativo que esses textos não merecem (KONINGS, p. 162). Imagine uma biblioteca: nem todo livro bom consegue entrar nela. Não porque seja ruim, mas porque a biblioteca foi montada com um propósito específico. Assim aconteceu com a Bíblia.

Como se formou o cânon judaico?

O documento nos conta que “o cânon judaico nasceu da prática dos escribas depois de Jâmnia” (KONINGS, p. 162). O critério principal era a “letra”: o escrito precisava estar em língua hebraica (ou aramaica, em alguns trechos). O que estava fora disso era considerado “extracanônico” – incluindo “livros perfeitamente aceitáveis que circulavam entre os judeus de língua grega (os ‘deuterocanônicos’, do ponto de vista cristão)” (KONINGS, p. 162). Ou seja, mais do que uma decisão sobre “o que é verdadeiro”, a formação do cânon foi um processo prático e histórico.

E o cânon cristão? Uma resposta a Marcião

Muita gente pensa que o cânon cristão foi formado para impedir a inclusão de novos livros. Mas o documento revela algo surpreendente: “O cânon cristão começou a se definir não tanto para impedir a ampliação (inclusão de novos livros), mas, antes, para contrariar a restrição proposta pelo gnóstico Marcião, que aceitava só dez cartas paulinas, devidamente expurgadas, e o evangelho ‘paulino’ de Lucas, banindo as escrituras judaicas e tudo o que, no Novo Testamento, soava judaico” (KONINGS, p. 163). Diante dessa restrição radical, a ortodoxia cristã precisou afirmar um cânon mais amplo. Nesse processo, “teve grande influência Irineu de Lião, que combateu os gnósticos e seus escritos, mostrando que o dualismo, o elitismo e a mente complicada deles se opunham diametralmente ao que Jesus propõe” (KONINGS, p. 163).

O perigo dos livros “curiosos” na catequese popular

Aqui o documento toca num ponto que merece nossa atenção: “alguns escritos extracanônicos não foram rejeitados tão radicalmente. Aqueles que contavam histórias populares, piedosas, a respeito de Jesus, Maria, os anjos, Adão e Eva etc. penetraram na catequese popular e a influenciam até hoje – não sem problemas, pois muitas vezes veiculam o dualismo e o antijudaísmo, além de realçarem questões periféricas, que com o essencial da fé pouco têm a ver” (KONINGS, p. 163). E então vem um alerta que ecoa forte para os dias atuais: “Surge assim o perigo de privilegiar tudo aquilo que parece estranho e curioso, sobretudo entre os católicos, que não têm o costume de se alimentar com a Bíblia” (KONINGS, p. 163). Você consegue perceber a força dessa observação? Quando não conhecemos a Escritura canônica, ficamos vulneráveis a nos encantar com o que é exótico, misterioso ou aparentemente “secreto”. O apelo do extraordinário pode nos afastar do essencial.

Extracanônicos que ajudam nos estudos bíblicos

Nem tudo é perigo. O documento reconhece o valor de alguns desses escritos para os estudos bíblicos: “Para os estudos bíblicos, os mais importantes são alguns extracanônicos do Antigo Testamento, porque oferecem paralelos, elaborações midráxicas e comentários aos livros do Antigo Testamento e até deixaram reminiscências e citações no Novo Testamento: Henoc, Assunção de Moisés, Jubileus, Testamentos dos Doze Patriarcas…” (KONINGS, p. 165). Esses textos nos ajudam a compreender o ambiente religioso e o pensamento dos leitores da Bíblia no período chamado “intertestamento” e nos alvores da era cristã. São como janelas para a sensibilidade religiosa da época.

O problema do dualismo que persiste até hoje

Um dos pontos mais fortes do texto é a denúncia do dualismo presente em muitos apócrifos “populares”: “Eivados de dualismo, platonismo popular ou mesmo gnosticismo, esses escritos são em parte responsáveis pelo dualismo que até hoje pesa sobre a catequese cristã e que nada tem a ver com o espírito genuinamente bíblico” (KONINGS, p. 165). Vale a pena parar aqui. O que é dualismo? É uma visão de mundo que separa radicalmente o espírito (bom) da matéria (ruim), o céu (puro) da terra (corrupta). Essa ideia não vem da Bíblia, mas influenciou profundamente a piedade popular. Quantas vezes ouvimos frases como “o corpo é a prisão da alma” ou “o mundo material é pecado por natureza”? Isso não é bíblico – é dualismo disfarçado de espiritualidade.

O que dizer do Evangelho de Tomé?

O documento menciona que, ultimamente, tem-se procurado mostrar que existiram formas de “evangelho” que não foram moldadas pela ortodoxia paulina e sinótica – evangelhos compostos só pelas palavras do sábio Jesus, não centradas em torno de sua morte e ressurreição (KONINGS, p. 165). O exemplo mais conhecido é o Evangelho de Tomé. Mas há um detalhe decisivo: “proeminentes estudiosos julgam que o Evangelho de Tomé depende dos evangelhos canônicos” (KONINGS, p. 165). Ou seja, ele veio depois, e não representa uma tradição independente e anterior.

O que isso tem a ver com a sua vida espiritual?

Essa reflexão não é apenas para especialistas. Ela toca no modo como você e eu lemos, ouvimos e vivemos a fé.
  • Primeiro: aprendemos que o cânon não é uma lista arbitrária de livros “aprovados” por um grupo de poder. O principal critério foi “certamente o valor para a fé em sua fase constitutiva. Uma vez configurada a base da fé, a partir da Tradição que considera certo número de textos como sua referência escrita, não faz sentido querer acrescentar mais textos ainda” (KONINGS, p. 162).
  • Segundo: somos convidados a ter discernimento diante de histórias religiosas “curiosas” que circulam por aí. Nem tudo que parece espiritual edifica de verdade. O critério não é o estranho ou o misterioso, mas aquilo que está em sintonia com “o espírito genuinamente bíblico” (KONINGS, p. 165).
  • Terceiro: o documento nos desafia, especialmente os católicos, a nos alimentarmos com a Bíblia – e não com curiosidades apócrifas. A falta de familiaridade com a Escritura nos torna presas fáceis do sensacionalismo religioso.

Conclusão: valorizar o cânon sem medo do extracanônico

Os livros extracanônicos não são “maus” nem “proibidos”. Eles têm seu valor – histórico, literário, pedagógico. “Seu valor consiste sobretudo em ilustrar o pensamento e a sensibilidade religiosa dos leitores da Bíblia no tempo chamado ‘intertestamento’ e nos alvores da era cristã” (KONINGS, p. 164-165). Mas eles não são a regra da fé. Não porque alguém os tenha escondido, mas porque a comunidade que reconheceu o cânon entendeu que a base da fé já estava suficientemente estabelecida nos textos que passaram a considerar como sua referência escrita. Que possamos, como comunidade cristã, alimentar-nos da Bíblia canônica – essa sim, fonte segura para a nossa fé. E, ao encontrar um texto extracanônico, aproximar-nos dele com interesse histórico, mas com o discernimento de quem sabe distinguir o essencial do acessório, o espírito genuinamente bíblico do dualismo que ainda insiste em penetrar na catequese. Afinal, como nos lembra o documento, o dualismo “nada tem a ver com o espírito genuinamente bíblico” (KONINGS, p. 165). E a verdadeira espiritualidade cristã nasce desse espírito – simples, encarnado, centrado em Jesus crucificado e ressurreto.

Referência:

KONINGS, Johan. Os Livros que não entraram na Bíblia. In: IDEM. A Bíblia, sua origem e sua leitura: introdução ao estudo da Bíblia. 8. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018. cap. 8.  p. 162-165.  

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