A Sagrada Escritura: Um Diálogo entre Judeus e Cristãos

Como duas tradições leem a mesma Palavra de Deus Quando abrimos a Bíblia, as primeiras palavras nos apresentam um Deus

Judeu e crist o nil2gxitnf

Como duas tradições leem a mesma Palavra de Deus

Quando abrimos a Bíblia, as primeiras palavras nos apresentam um Deus que fala. E sua palavra não é vazia: ela cria, transforma e interpela. No livro do Gênesis, Deus diz “Que a luz seja!” e a luz vem a ser. Essa palavra performativa ecoa ao longo de toda a Escritura, desafiando cada pessoa a responder à pergunta divina: “Onde estás?”
Mas como organizar tamanha riqueza? E por que judeus e cristãos organizam os livros sagrados de formas diferentes?

Duas Estruturas, Uma Mesma Palavra?
Os judeus chamam sua Escritura Sagrada de Tanak, sigla formada pelas iniciais de Torá (“Lei”), Nebi’im (“Profetas”) e Ketubim (“Escritos”). São 24 livros (ou 22, dependendo da contagem), números que remetem à perfeição: 22 letras do alfabeto hebraico, 24 meses ou tribos de Israel.
A Torá — Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio — está no centro. Ela é fundamento. Os Profetas (incluindo Josué, Juízes, Samuel e Reis) são lidos como comentários que atualizam a Torá. Os Escritos vêm em seguida, com Salmos, Jó, Provérbios, entre outros.
Já os cristãos, no chamado Primeiro Testamento, reorganizaram esses livros em quatro blocos: Pentateuco, Históricos, Sapienciais e Proféticos. Rute, por exemplo, sai dos Escritos e vai para depois de Juízes. Crônicas, Esdras e Neemias ganham nova posição cronológica. Daniel, que no Tanak está nos Escritos, passa a integrar os Profetas.

A Torá como Fundamento Inabalável
O que permanece em ambas as tradições é a centralidade da Torá. O texto final do Deuteronômio (34,10-12) afirma: nunca mais surgiu profeta como Moisés, a quem o Senhor conhecia face a face. A Torá é revelação incomparável, insuperável, eternamente válida.
Os Profetas, então, não vêm para substituí-la, mas para interpretá-la. O livro de Malaquias (3,22-24) conclama: “Lembrai-vos da Lei de Moisés”. Elias, o profeta, retornará para reconduzir o coração dos pais aos filhos — uma transformação baseada na aprendizagem da Torá.

Passado, Presente e Futuro na História da Salvação
A estrutura cristã do Antigo Testamento segue um esquema teológico de passado-presente-futuro:
• Passado (livros históricos, de Josué a 2Macabeus): demonstra o que acontece a uma comunidade que vive — ou fracassa — com a Torá.
• Presente (livros sapienciais, de Jó a Sirácida): convida cada pessoa a buscar a verdadeira sabedoria, orando e meditando a Torá.
• Futuro (livros proféticos, de Isaías a Malaquias): projeta a visão de que os povos peregrinarão até Sião para aprender a paz de Javé.
Assim, o Antigo Testamento não é apenas história antiga. Ele é promessa, interpelação e abertura para o que está por vir.

A Ponte Profética para o Novo Testamento
O texto final do Primeiro Testamento — Malaquias 3,22-24 — é citado várias vezes no Novo Testamento. João Batista é identificado como o Elias prometido para os tempos escatológicos. Por meio de João, o Novo Testamento e sua mensagem sobre Jesus Cristo são estreitamente engrenados com o Primeiro Testamento.
A imagem final, belíssima: os judeus seguem atrás da coluna de fogo e nuvens do Deus do Sinai; os cristãos seguem atrás de Jesus, que não substitui a coluna, mas é uma voz dela. No fim, ambos terão ouvido o mesmo Deus, ainda que de maneiras diferentes.

Conclusão
Ler a Bíblia é aceitar o convite a se colocar diante do Deus que fala. É responder à pergunta “Onde estás?” com honestidade. É reconhecer que a Torá — dom de salvação — ilumina o passado, sustenta o presente e aponta para o futuro. Judeus e cristãos, cada qual com sua estrutura e ênfase, peregrinam rumo ao mesmo destino: o dia de Javé, quando a árvore da vida estará no centro da cidade, e Deus fará novas todas as coisas.
________________________________________
Referência:
ZENGER, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2003. p. 28-43.

Gostou do Post? Compartilhe!