Não Tenhais Medo: A Confiança em Deus que Transforma o Medo em Esperança

Introdução Há uma palavra que ecoa no íntimo de cada coração humano: o medo. Medo da rejeição, medo do

Jesus

 Introdução

Há uma palavra que ecoa no íntimo de cada coração humano: o medo. Medo da rejeição, medo do desconhecido, medo da morte, medo do que nos pode fazer sofrer. No Evangelho de Mateus 10,26-33, Jesus dirige-se aos apóstolos – e a cada um de nós – com uma exortação que corta a escuridão como um raio de luz: “Não tenhais medo”. Esta não é uma frase vazia ou um conselho superficial. É um chamado a mergulhar na confiança do Deus que é amor, que cuida da nossa vida e que nos atribui um valor infinito. Neste artigo, vamos percorrer este trecho do Evangelho, acolhendo-o como uma meditação viva que nos ensina onde depositar a nossa confiança, do que devemos verdadeiramente nos guardar e como descobrir a paz que nasce do abandono nas mãos do Pai.


O chamado a viver na luz e a confiar sem medo

Jesus começa por nos tirar das sombras. Ele diz: “nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido” (v. 26). A verdade não permanece sepultada; ela está destinada a brilhar. Por isso, o Senhor convida os seus a proclamar à luz do dia o que Ele sussurra no íntimo, a gritar sobre os telhados aquilo que foi escutado junto ao ouvido.

Do segredo à proclamação: uma vida sem máscaras

Este apelo é um antídoto direto ao medo dos homens. Quem vive na verdade, quem deixa que a Palavra de Deus ilumine os seus pensamentos e as suas ações, não precisa temer a opinião alheia ou as ameaças exteriores. A confiança em Deus dissolve o medo de ser descoberto, porque a vida já está exposta à luz da Sua presença amorosa. O Senhor nos fala ao coração nos chamando a confiança, mergulhar na confiança dele, colocar a vida dele. A escuridão de que fala o texto não é apenas a do segredo humano, mas a de uma existência que ainda não se deixou tocar por esta certeza.


O temor que salva e o perigo que vem de dentro

Logo a seguir, Jesus faz uma distinção radical: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno” (v. 28). Aqui, abre-se uma compreensão essencial sobre o que significa este “inferno” e qual é a verdadeira ameaça à nossa vida.

A diferença entre matar o corpo e matar a alma

O inferno é “a separação profunda e eterna de Deus. Viver numa escuridão, no fechamento, numa obtusidade, sem alegria, com dor, sem esperança”. O mal maior não é a morte física, mas a ruína da alma, a perda da comunhão com a fonte da vida. Por isso, o temor que nos é pedido não é o pavor que paralisa diante de um tirano, mas a reverência lúcida que nos protege da destruição interior.

“Tenha medo de você mesmo”: a responsabilidade das escolhas

Surge aqui um conselho expresso como um segredo: Tenha medo de você mesmo, de você mesma. Porque muitas vezes as escolhas que nós fazemos podem sim nos levar à perdição, à escuridão e ao distanciamento do reino de Deus e do amor dele. Não é Deus quem nos afasta; somos nós que, ao fecharmos o coração, ao negarmos e renegarmos o Seu amor e a Sua presença, cavamos o nosso próprio abismo. O perigo não está na fragilidade humana em si, mas nas decisões que endurecem a alma e a tornam surda ao chamado divino.


O olhar cuidadoso do Pai sobre a nossa pequenez

Para nos ancorar na confiança, Jesus dirige o nosso olhar para a simplicidade da criação. Dois pardais são vendidos por algumas moedas, e “nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai” (v. 29). Quanto mais nós, que temos “até os cabelos da cabeça contados” (v. 30).

Dos pardais aos cabelos contados: a ternura de um Deus próximo

Esta imagem revela um Deus que não é um princípio abstrato, mas um Pai atento ao detalhe mais ínfimo da nossa existência. Então temos uma verdade com força: nós valemos muito para Deus. Ele nos deu a vida. Ele cuidou de cada um de nós. Ele nos fez criaturas amadas. Ele é o nosso criador. O medo dissipa-se quando descobrimos que não somos fruto do acaso, mas objeto de um cuidado pessoal e constante.

O valor inegociável da vida humana

Vós valeis mais do que muitos pardais” (v. 31). Esta frase é um brado contra toda a tentação de desvalorizar a própria existência ou a dos outros. Esta certeza nos recorda o preço com que fomos resgatados: Ele morreu por nós, derramou seu sangue por nós. Ele é a verdade, o caminho e a vida. Ele assumiu o seu destino por nós, por toda a humanidade. Se Cristo entregou tudo por nós, o nosso valor está definitivamente selado. Não há motivo para temer Aquele que nos ama até ao extremo.


A confissão que define a eternidade e o apelo à entrega

O Evangelho conclui com uma solene declaração de Jesus: “todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus” (vv. 32-33).

Declarar-se por Cristo: um ato de confiança que gera pertencimento

Não se trata de um Deus que espera o nosso tropeço para nos rejeitar. Pelo contrário, Ele nunca nos negará um lugar ao seu lado, nunca nos negará colo, porque nós somos preciosos para ele. O que está em causa é a direção fundamental do nosso coração. Mas, pensemos: Para que Deus o meu coração está voltado, em quem eu coloquei a minha confiança? É ele o Deus do céu, o Pai de todas as coisas?. A confiança que Jesus pede não é um sentimento passageiro, mas uma decisão de vida que se manifesta em palavras e em atos.

A graça que nos sustenta e a resposta do coração

Eis o convite: coloque-se diante do Senhor em profundidade. Beba da sua fonte. Renove a sua confiança. A vida espiritual nasce deste movimento simples e radical: deixar de ter medo de Deus, descobrindo que Ele é amor, misericórdia, compaixão. A experiência do Seu amor infinito é o que torna possível não negá-Lo, mesmo em meio às provações, porque já não vivemos para agradar aos homens, mas para corresponder Àquele que nos conhece e nos ama por inteiro.


Conclusão: uma vida ancorada na confiança do Pai

O Evangelho de Mateus 10,26-33 não é um tratado sobre o medo, mas um mapa para a confiança. Jesus não nos promete uma vida sem dificuldades, mas oferece-nos uma rocha firme sobre a qual edificar a existência: a certeza de que o Pai cuida de cada detalhe, de que a alma tem um destino eterno e de que ninguém nos pode arrancar das Suas mãos, a não ser que nós próprios escolhamos a escuridão do fechamento. O segredo sussurrado ao coração é ao mesmo tempo um alerta e uma carícia: “tenha medo de você mesmo”, no sentido de vigiar as próprias escolhas, mas “não tenhais medo” de Deus, porque Ele é a fonte da alegria, da esperança e da vida que não morre.

Hoje, este texto coloca-nos diante de uma decisão: em quem depositamos a nossa confiança? A resposta está em reconhecer o valor que temos aos olhos do Pai, em beber da Sua fonte inesgotável e em confessar com a vida que Jesus é o Senhor. Só assim o medo se transforma em esperança, e a existência se abre à luz de um amor que jamais terá fim.


Referência

EVANGELHO DE MATEUS 10,26-33. In: Liturgia da Palavra. [S. l.], [2024].

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