A Bíblia é o livro mais lido e editado do mundo. Está nas mãos das pessoas mais simples, e muitos adultos aprendem a ler por meio dela. Mas será que estamos lendo a Bíblia corretamente?
Quantas vezes ouvimos alguém dizer: “A Bíblia diz…”? Será que a Bíblia realmente diz aquilo? O artigo “Um decálogo para ler a Bíblia”, de Jaldemir Vitório, oferece orientações preciosas para uma leitura proveitosa do texto sagrado.
As duas grandes armadilhas
Antes de começar, é preciso evitar dois perigos: o historicismo e o fundamentalismo.
O historicismo trata a Bíblia como um livro de crônicas de um passado distante, preocupado apenas em comprovar fatos. Já o fundamentalismo toma as afirmações bíblicas ao pé da letra, sem esforço de interpretação. O resultado? Atribuímos a Deus coisas com as quais Ele nada tem a ver.
O fundamentalista não parte da Bíblia mesma, embora afirme o contrário. Ele parte de uma ideia que tem sobre a Bíblia: que foi “ditada” por Deus, livre de todo erro. Sua interpretação é considerada a única válida.
Quando superamos essas tentações, a Palavra de Deus pode gerar união, fraternidade e solidariedade.
A Bíblia não é uma crônica histórica
A Bíblia é, fundamentalmente, teologia narrativa. O grande personagem é Deus, presente da primeira à última página. Os narradores bíblicos não tinham a preocupação de conservar fatos históricos como fazem os cronistas. Queriam transmitir sabedoria de vida.
Por isso, não precisam temer as descobertas arqueológicas que questionam dados bíblicos. O foco está na mensagem, não na veracidade histórica de cada detalhe.
O tripé da leitura: contexto, pré-texto e texto
O biblista Carlos Mesters oferece uma chave valiosa: para penetrar o mundo da Bíblia, precisamos de três pés.
- Contexto: o “chão” em que o texto bíblico teve origem – político, social, religioso.
- Pré-texto: as questões que o contexto levantava para a fé da comunidade, e que o texto buscava responder.
- Texto: a mensagem final, que só ganha vitalidade quando os dois primeiros passos foram elucidados.
Essa mesma dinâmica vale para a leitura atual: partimos do nosso contexto existencial, trazemos nossas questões de fé, e deixamos que o texto bíblico se torne Palavra de Deus para nós.
A Palavra de Deus: o que é?
É comum dizer: “A Bíblia é a Palavra de Deus”. Mas é preciso cuidado.
A Palavra de Deus é o próprio Deus se comunicando com a humanidade. A Bíblia é a narração dessa experiência de diálogo entre Deus e o povo de Israel. Identificar a materialidade do texto com a Palavra de Deus é um erro frequente nas leituras fundamentalistas.
A Bíblia funciona como um espelho: nela nos reconhecemos. Uma mulher pobre e migrante, após ler Gn 12, exclamou: “Eu sou Abraão!”. O texto ajudou-a a compreender sua própria história de fé e confiança.
Leitura ecumênica: todos um
Os conflitos de interpretação não estão no texto bíblico, mas na forma como o lemos. Quando deixamos de lado dogmas e doutrinas prévias, e nos dispomos a buscar juntos a mensagem, abrimo-nos ao espírito ecumênico.
O desejo de Jesus é claro: “Que todos sejam um”. Qualquer divisão entre discípulos por causa da interpretação da Bíblia é indefensável.
Conclusão
Ler a Bíblia proveitosamente exige humildade, paciência e método. Evitar leituras aleatórias e anacrômicas. Respeitar o contexto, as línguas originais, os gêneros literários. E, acima de tudo, abrir-se para que o texto deixe de ser apenas letra morta e se torne Palavra viva de Deus.
Quando a leitura foge dessas balizas, a interpretação será incorreta. E quem insiste nela corre o risco de ser infiel ao Deus da Bíblia e a Jesus Cristo, a “Palavra que se fez carne e habitou entre nós”.
Referência
VITÓRIO, Jaldemir. Um decálogo para ler a Bíblia. Estudos Bíblicos, vol. 35, n. 140, p. 379-396, out./dez. 2018.


