A parábola dos operários da vinha, também conhecida como a parábola dos trabalhadores da undécima hora, toca em um ponto sensível da vida cristã: a tentação de nos julgarmos superiores aos outros. Mais do que uma lição sobre relações trabalhistas, essa parábola revela o risco que cada membro da igreja corre de se colocar acima dos demais. A mensagem é clara: na igreja, ninguém pode considerar-se acima dos outros. Ninguém.
Este artigo reflete sobre essa parábola a partir da liturgia e das leituras proclamadas, especialmente o trecho do profeta Isaías e o Evangelho de Mateus. O convite é mergulhar na bondade desconcertante de Deus, que não segue a lógica matemática das nossas atitudes, e aprender a viver a humildade como caminho para a comunhão.
O risco de se julgar superior aos outros
A parábola que ouvimos diz do risco que os membros da igreja correm de se julgarem superiores aos outros. É disso que a parábola trata. O Papa Francisco, no Angelus de 5 de novembro de 2017, disse que lhe custa muito sofrimento ver pessoas que vivem psicologicamente correndo atrás da vaidade e das honrarias deste mundo. Não devemos nos considerar superiores aos outros.
A modéstia é essencial para uma existência que queira ser conforme o ensinamento de Jesus, que é manso e humilde de coração e não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. Essa advertência ecoa diretamente na parábola dos operários da vinha.
A desolação dos exilados e a nossa própria desolação
O trecho do capítulo cinquenta e cinco do livro do profeta Isaías retrata uma situação de desolação dos exilados do povo de Deus na Babilônia, no século sexto antes de Cristo. Os longos anos no exílio fizeram com que a quase totalidade dos exilados perdesse a esperança de um dia retornarem a Israel, mais concretamente a Judá, onde ficava o Templo de Jerusalém, que eles criam ser o único lugar onde podiam encontrar e louvar a Deus.
Com isso, eles tinham também a sensação de que Deus os havia abandonado e se esquecido deles. Nós continuamos, muitas vezes, a fazer a mesma experiência. Equivocadamente, como aquele povo, nas situações difíceis da nossa existência, em que parece não haver saída, a primeira coisa que fazemos é dizer: Deus não olha mais para mim. Deus se esqueceu de mim. Deus me abandonou.
Um equívoco. Essa situação não muda. Nós começamos, não obstante a nossa fé cristã, a nos lamentar por uma ideia equivocada de Deus.
O Senhor está sempre perto
É nesta situação de desolação e de desencorajamento que a voz inspirada do profeta se levanta para dar ânimo aos desanimados. O Senhor, diz o profeta, se deixa encontrar, pois ele está perto. O Senhor sempre está perto. Como cantamos no refrão do Salmo: o Senhor está perto da pessoa que o invoca, está sempre perto.
Sintamos ou não sintamos, o Senhor está sempre ao nosso lado. Jamais nos abandona. No capítulo quarenta e cinco do livro do profeta Isaías, Deus toma a palavra para dizer: ainda que o teu pai e a tua mãe te esqueçam, eu nunca te esquecerei. Nunca. Que reconfortante para nós.
Não há tempo, nem situação em que o Senhor não esteja próximo e não se deixe encontrar. Ele se oferece para ser encontrado. Ele se oferece na nossa existência, nas situações mais diversas, para ser reconhecido.
Deus sofre com o nosso sofrimento
O Senhor está sempre presente quando nós sofremos e em qualquer situação da nossa existência. Deus está perto de nós. E quando sofremos, Deus sofre com o nosso sofrimento. Deus é alguém que tem empatia pela nossa humanidade. Deus nos visita em nosso sofrimento.
Às vezes, perdemos a esperança de que a humanidade possa ser melhor. E não é difícil perder a esperança. As pessoas às vezes dizem: Padre, a esperança é a última que morre. Estou de acordo, mas morre, morre.
São Paulo vai dizer depois: hoje três coisas permanecem, a fé, a esperança e o amor. Mas a maior dessas três virtudes é o amor, porque a fé e a esperança desaparecerão. O amor não acabará nunca. No entanto, enquanto nós existimos, é preciso manter firme a esperança. Confiemos em Deus e nos empenhemos por fazer a nossa parte, deixando-nos iluminar pelo Evangelho de Jesus Cristo e sustentar pela ação do Espírito que busca fazer morada em nós.
A salvação é dom, não meritocracia
A participação no Reino dos Céus, representada no Evangelho pela imagem do trabalho na vinha, não é do âmbito da meritocracia. É puro dom do imenso amor de Deus por seu povo. É Deus quem, desde sempre, desde as primeiras horas do dia, convida a trabalhar na sua vinha, isto é, a que participemos da sua vida, a que vivamos a nossa existência na comunhão com ele.
Na parábola dos operários da undécima hora, é o próprio patrão, dono da vinha, que em diferentes horas do dia sai às praças chamando os operários para o trabalho na sua vinha até a última hora da jornada. Isso significa que em todos os tempos e a todas as pessoas, indistintamente, Deus sai, Deus toma a iniciativa de chamar.
Aqueles que murmuravam por terem todos recebido a mesma quantia ouvem do patrão: amigo, eu não fui injusto contigo, não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e vai para casa. Para de murmurar, para de fofocar, vai para casa. Não induzas os outros a erro.
Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Nós somos sempre aqueles que chegaram depois. Tem gente que chegou antes de nós, viveu antes de nós. E nós que chegamos depois, que vivemos nesse tempo, o Senhor nos dá a mesma coisa: o seu amor, a sua bondade, a sua compaixão. Numa palavra, nos dá sua vida. Nos oferece reiteradamente o convite a participar da sua vida.
Por acaso, diz o texto, eu não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? O que pertence a Deus? A salvação. É Ele que nos dá a salvação, ela não nos pertence. A salvação não está no âmbito da meritocracia, ela é dom, independente do nosso comportamento. Ela é dom do amor, que não segue a nossa lógica humana.
A inveja é um olho mau
Eu não posso fazer o que eu quero com aquilo que é meu? Ou estás com inveja porque eu estou sendo bom? Literalmente, no texto da língua original em que o Evangelho foi escrito, no grego, encontramos a expressão para dizer inveja: olho mau. A inveja é um olho mau dirigido ao outro e é um olho mau dirigido a Deus.
Fico imaginando: até de Deus a gente tem inveja. A gente tem inveja da bondade de Deus. Talvez porque ela nos incomode. Talvez porque ela nos leve a pensar as coisas e as nossas relações com outro olho, com outra cabeça, com uma outra mentalidade.
Aí está a razão da murmuração e do descontentamento: a inveja, o olho mau, o modo de ver os outros e Deus. E a razão da inveja é o desejo de se colocar acima dos outros. A bondade e a misericórdia de Deus são desconcertantes para os nossos cálculos humanos.
Qual é o meu olhar?
Vale se perguntar nesta celebração da Eucaristia. Quem sabe, pode ser até a conversa do café da tarde. A pergunta que faço é esta: Qual é o meu olhar para as pessoas? Um olhar bom ou um olhar mau? Um olhar empático, generoso ou interesseiro? Qual é o meu olhar sobre as situações em que estamos mergulhados? Ou então, qual é o meu olhar sobre mim mesmo?
Comparar-se com os outros causa muito sofrimento e está na raiz da inveja, que gera fofoca, difamações, juízos injustos, desprovidos de qualquer verdade. Correr atrás de honrarias, querendo colocar-se acima dos outros e desprezando os demais, destrói a comunhão eclesial.
Esta ânsia de querer se impor vaidosamente como diferente das demais pessoas faz de nós, como diz São Lucas no episódio de Zaqueu, pessoas de baixa estatura. Pessoas impossibilitadas por sua conduta moral de ver Jesus, como Zaqueu, um homem de baixa estatura, de uma conduta moral tal que ele nunca poderia ver Jesus, se Jesus não o visse.
A fofoca é uma peste
O Papa Francisco, no Angelus de 10 de setembro de 2023, disse: A fofoca é uma peste. É uma peste para a vida das pessoas e das comunidades, porque leva à divisão, leva a sofrimento, leva a escândalo e nunca ajuda a melhorar, nunca ajuda a crescer.
Um grande mestre espiritual, São Bernardo, dizia que a curiosidade estéril e as palavras superficiais são os primeiros degraus da escada da soberba, que não conduz ao alto, mas embaixo, precipitando o ser humano à perdição e à ruína.
No Angelus de 6 de setembro de 2026, o Papa Leão XIV disse: As queixas e as calúnias são mais fáceis, mas não produzem nada e paralisam muitas situações. O Evangelho, pelo contrário, nos educa para a liberdade na caridade.
Os pensamentos de Deus são mais altos
O verdadeiro salário está em ser chamado a participar da vida de Deus. O amor de Deus não segue a lógica matemática das nossas atitudes. Por isso, no trecho de Isaías que ouvimos, Deus diz: Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, vossos caminhos não são os meus caminhos.
Essa frase revela a enorme distância que nos separa de Deus. Essa frase é também um convite à humildade e à tolerância, e um chamado a encurtar essa distância em relação a Deus. É necessário humildade quando ousamos falar de Deus. Tolerância pelo modo com que outros falam de Deus.
Quem dentre nós pode pretender conhecer os pensamentos de Deus? Sempre haverá algo, sempre haverá um passo a dar para conhecer os pensamentos de Deus.
Conclusão: sejamos humildes
A salvação é dom de Deus e, como tal, deve ser recebida e vivida. A parábola do Evangelho ressalta a justiça e a incomensurável bondade de Deus, sua generosidade sem limites para com todos. Quando pensarmos que a bondade de Deus é exagerada, lembremo-nos dessa palavra: Os meus caminhos estão tão acima dos vossos caminhos e os meus pensamentos acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da Terra.
Sejamos humildes. Aprendamos de Deus a como ser justos, a como não discriminar as pessoas. Aprendamos de Deus a sermos bons. E amarmos as pessoas como nós somos amados e queridos por Deus.
Para refletir
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Tenho me julgado superior a alguém dentro da comunidade de fé?
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Em momentos de desolação, tenho acreditado que Deus me abandonou?
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Qual é o meu olhar para as pessoas: um olhar bom ou um olhar mau?
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Tenho alimentado inveja da bondade de Deus manifestada na vida de outros?
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Como posso cultivar a humildade e a tolerância no modo como falo de Deus e dos outros?
Referência
MISSA do XXV Domingo do Tempo Comum. Publicado por: Pateo do Collegio. [S. l.], 20 set. 2026. 1 vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5n4YcByf6bM. Acesso em: 20 set. 2026.
BÍBLIA. Mateus 20,1-16a. In: BÍBLIA Sagrada.
BÍBLIA. Isaías 55,6-9. In: BÍBLIA Sagrada.


