Há uma pergunta que brota com força sempre que o mal se exibe sem disfarces: por que Deus não age agora? Diante da injustiça que grita, do joio que sufoca o trigo e da aparente impunidade, nosso senso de justiça costuma vestir a capa da urgência. Queremos arrancar, separar, limpar o campo já. A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum, porém, desconcerta essa pressa com um “não” divino que guarda mais misericórdia do que os nossos “sins” apressados.
O “não” que nasce da força, não do medo
No Evangelho, o dono do campo proíbe os servos de arrancarem o joio imediatamente: “Deixai crescer ambos até a colheita”. A primeira leitura, do Livro da Sabedoria, ilumina essa resposta com uma afirmação desconcertante: “A tua força é o princípio da tua justiça”. Não é apesar de ser todo-poderoso que Deus espera; é exatamente porque Ele é todo-poderoso. Quem teme perder o controle golpeia depressa. Quem não pode perder, pode esperar. Deus julga com tranquilidade, e essa tranquilidade não é fraqueza, mas soberania serena.
Nós, que mal conseguimos julgar o nosso próprio coração, vivemos apressando o julgamento dos outros. Há uma lógica espiritual implacável nisso: quem não confia na própria força precisa que a justiça seja instantânea para sentir-se seguro. Deus, ao contrário, adia a foice porque o amor não se defende com ansiedade.
Raízes entrelaçadas e o perigo dos impacientes
A parábola guarda um detalhe agrícola de enorme profundidade espiritual. Nos primeiros brotos, o joio e o trigo são quase idênticos. As raízes, lá embaixo, entrelaçam-se de tal modo que arrancar um seria arrancar o outro. Arrancar o joio agora, com pressa, seria fazer o trabalho do inimigo achando que se faz o trabalho de Deus. O Senhor não nega que o joio seja joio, nem que a colheita virá. Mas a foice adiada é uma espécie de misericórdia em movimento.
A Igreja aprendeu essa lição com sangue e divisão. No século IV, no norte da África, cristãos que haviam resistido às perseguições quiseram uma igreja só de puros. Os donatistas ergueram altares contra altares e decretaram que os sacramentos dos outros não valiam, porque as mãos que os ministravam não eram bastante limpas. Santo Agostinho enfrentou essa heresia justamente com a parábola do joio e do trigo. O campo é o mundo inteiro, não o quintal de um grupo. A colheita é no fim dos tempos, não no tempo de Donato, nem no nosso. E Agostinho acrescentou uma frase que fere toda empáfia espiritual: “Quem não suporta o joio prova que não é trigo”. Se fosse trigo, suportaria a existência do joio.
Quando o zelo abraça a foice
Em todo tempo aparece entre nós o zelo que se apaixona pela foice. Há quem sonhe com uma igreja pequena, pura, só dos que estão certos, iluminados por um conhecimento que a maioria não possui. Falam de pureza e entregam divisão. Querem antecipar a colheita e acabam semeando o joio do desprezo no meio do trigo de Deus. Amar a tradição, guardar a doutrina e querer uma igreja santa é dever. O erro não está em amar o trigo, mas em não suportar o campo. Quando a pureza passa à frente da unidade, nasce o cisma dos impacientes e eles se tornam exatamente aquilo que queriam arrancar.
O campo é também o coração
A palavra desce ao interior. O campo não é apenas o mundo lá fora; é a igreja peregrina, e é também o meu coração e o teu. Há joio em nós que gostaríamos de arrancar hoje, com violência, com desprezo, com a certeza de estarmos certos. Enquanto isso, há trigo no outro que não enxergamos, ocupados demais medindo o joio alheio. São Paulo alerta que não sabemos o que pedir. O Espírito geme em nós, não com o grito de condenação, mas com o gemido de quem ainda espera a conversão, a nossa e a do outro.
Um verso de Os Lusíadas lança luz sobre essa dinâmica interior: “Onde reina a malícia está também o receio, que a faz imaginar no peito alheio”. Se a malícia reina em mim, começo a projetá-la no coração dos outros. Pedimos que Deus arranque o pecado alheio, quando muitas vezes o que Ele quer arrancar primeiro é a nossa pressa em julgar de modo definitivo. Se Deus fizesse justiça imediata, nenhum de nós teria chegado sequer aos quinze anos. Todos nós já merecemos o que não desejamos receber.
A foice adiada é esperança em movimento
O Senhor não prometeu que o joio viraria trigo por mágica. Disse que a colheita será no fim. No fim, os ceifeiros são os anjos. No fim, os justos brilharão como o sol. Até lá, a foice adiada é Deus dizendo: ainda há tempo para o joio virar trigo. Não é tolerância frouxa, mas paciência ativa. A liturgia oferece uma prática concreta para essa semana: a guarda da língua. Ao notar o defeito do outro, calar aquela crítica que sobe rápida à boca e rezar, mesmo que brevemente, por essa pessoa. Trocar uma sentença por uma oração. Trocar a pressa de arrancar pela paciência de quem acredita que a colheita pertence a Deus.
Conclusão: esperar sem ser conivente, confiar sem ser covarde
O gemido do Espírito nos educa a não gritar com a nossa própria justiça. Somos chamados a ser trigo que suporta o joio, não por fraqueza, mas por fidelidade ao tempo de Deus. A colheita virá, a foice não foi abolida, foi adiada. E esse adiamento é a respiração da misericórdia no meio do campo.
Três perguntas podem nos acompanhar nos próximos dias:
- Onde tenho tido pressa de arrancar o joio na vida dos outros, ignorando o joio que cresce em mim?
- Como posso trocar uma sentença por uma oração concreta esta semana?
- Confio que a paciência de Deus é mais salvadora do que minha pressa justiceira?
A resposta a essas perguntas talvez comece com um simples ato de calar e esperar. Porque quem não pode perder, pode esperar.
Referência
A PACIÊNCIA de Deus e o juízo que ainda não chegou – Homilia do 16º Domingo do Tempo Comum | 19/07/2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qjodLN3ZGAM. Acesso em: 19 jul. 2026.


