Por Que a Bíblia Evangélica é Diferente da Católica: Entendendo o Cânone Bíblico

Muitas pessoas já se perguntaram por que a Bíblia católica parece ter mais livros do que a Bíblia evangélica. A

Duas Bíblias em diálogo

Muitas pessoas já se perguntaram por que a Bíblia católica parece ter mais livros do que a Bíblia evangélica. A resposta não está em traduções diferentes ou em versões incompatíveis, mas na história da formação do cânone dos livros sagrados. Compreender essa diferença é importante para quem deseja estudar a Palavra de Deus com maturidade e respeito pela tradição de cada comunidade de fé.

Este artigo reflete sobre as raízes históricas dessa distinção, mostrando que católicos e protestantes compartilham o mesmo Novo Testamento e que as diferenças estão concentradas no Antigo Testamento. Mais do que um debate técnico, trata-se de um convite à humildade e ao reconhecimento de que os grandes eixos da fé cristã estão presentes nas duas tradições.

Uma diferença que não se resume à tradução

O tradicional conjunto de livros sagrados que forma a Bíblia não é exatamente o mesmo para católicos e protestantes. Por conta do processo histórico não exatamente igual que grupos diferentes do cristianismo seguiram no amadurecimento do chamado cânone dos livros sagrados, as diferenças entre os textos utilizados por diferentes denominações religiosas cristãs não se restringem a variações de tradução.

De forma geral, as disparidades estão todas no Antigo Testamento, a parte da Bíblia que precede o nascimento de Jesus e é praticamente igual às escrituras judaicas. Para os católicos, são 46 livros os que compõem esse segmento. Os protestantes excluem os livros de Tobias, Judite, os dois volumes de Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, também chamado de Sirácida, e Baruc.

Protestantes e católicos não divergem quanto ao Novo Testamento, divergem quanto ao Antigo Testamento. É por isso que no dia a dia convencionou-se usar termos como Bíblia católica e Bíblia protestante ou Bíblia evangélica, terminologia mais comumente utilizada no Brasil contemporâneo, principalmente quando se refere aos grupos protestantes de denominações mais recentes historicamente.

Essa discrepância tem raízes históricas e está no cerne do próprio cisma que viveu o cristianismo no século XVI, a origem das denominações cristãs não católicas.

Não existem duas Bíblias completamente diferentes

Não existem duas Bíblias completamente diferentes, uma católica e uma protestante. O Novo Testamento é o mesmo. Antes de mais nada, é preciso lembrar que o cristianismo parte de uma base judaica.

Assim, os livros que formam o Antigo Testamento são a Bíblia judaica, um conjunto de textos que provavelmente circulava de forma oral já por volta do ano 1000 a.C. e, de lá para cá, passou a ser registrado. A própria formação do cânone judaico não ocorreu de uma hora para outra. Foram seis ou sete séculos em que se discutiu quais eram os livros aceitos.

É um debate que se arrastou até praticamente o final do primeiro século da atual era, com muita disputa sobre que livro entraria e que livro não entraria, e um forte apelo à tradição. Quando Jesus viveu, já havia um corpo relativamente consolidado dessa literatura considerada sagrada. Os primeiros cristãos seguiram produzindo seus textos.

A partir da morte de Jesus e, principalmente, na virada do primeiro para o segundo século da Era Comum, muito se escreveu a respeito da vida e da mensagem daquele homem que teria feito milagres, arrebanhado seguidores e morto crucificado pelas autoridades romanas que, aliadas com a elite judaica, dominavam a região de Jerusalém.

Eram relatos sobre aqueles primeiros cristãos, o livro Atos dos Apóstolos, histórias sobre quem teria sido Jesus, os quatro evangelhos, João, Lucas, Marcos e Mateus, e as cartas com orientações enviadas para as comunidades que eram fundadas em torno dessa mesma fé, dentre as quais se destacam as escritas por Paulo de Tarso.

A Septuaginta e a raiz da diferença

A raiz da discrepância nos Antigos Testamentos está em um trabalho hercúleo realizado por sábios e escribas em Alexandria, por volta do século III antes da Era Comum. Por razões até hoje não muito claras, eles tiveram a missão de traduzir para uma versão corrente do grego daquela época as escrituras consideradas sagradas pelos judeus.

O conjunto ganhou o nome de Septuaginta, ou Versão dos Setenta, por conta de uma lenda de que os tradutores teriam ficado em salas separadas, confinados, ao longo de setenta e dois dias, e, ao fim da missão, todos eles tinham versões idênticas do trecho. Essa narrativa imaginária corresponde ao relatado pelo historiador judaico-romano Flavio Josefo, mas é tida como fantasiosa. O nome, contudo, ficou.

Quando os primeiros cristãos buscavam o Cânone, voltaram-se para esse material grego. Vale ressaltar que os primórdios do cristianismo encontraram solo fértil em terras gregas, como Corinto e Tessalônica, entre outras tantas cidades por onde Paulo de Tarso circulou e a quem escreveu cartas.

A Igreja Católica acabou reconhecendo esses livros, essa antiga tradução grega das escrituras judaicas, como parte de um cânone. Desse conjunto fazem parte os sete livros do Antigo Testamento que estão na Bíblia Católica, mas não na versão protestante. Por causa dessa fonte grega, a versão católica da Bíblia tem ainda dois capítulos e um trecho a mais no livro de Daniel e diversos acréscimos em Ester.

A Reforma Protestante e a escolha do cânone judaico

Com a Reforma Protestante desencadeada por Martinho Lutero, em 1517, os dissidentes passaram a considerar como fonte inquestionável do Antigo Testamento os textos canonizados pelo judaísmo. Os sete livros em questão, chamados por eles de apócrifos e pelos católicos de conjunto deuterocanônico, acabaram sendo desconsiderados pelo cânone judaico apenas no concílio de Jamnia, na virada do primeiro para o segundo século da Era Comum. Por isso constavam do conjunto traduzido em Alexandria.

Os grandes eixos da fé cristã estão presentes nas duas tradições. Nenhuma das versões da Bíblia pode ser desprezada. Mas o próprio cânone católico não apareceu pronto. Ele foi se formando ao longo dos primeiros séculos, a partir das primeiras comunidades cristãs. A base foi a Septuaginta. A partir de então, os demais escritos foram sendo recolhidos, copiados, lidos nas assembleias e difundidos.

No início, houve discussões sobre alguns livros. Progressivamente, a Igreja foi reconhecendo a coleção que hoje temos. A mais antiga lista conhecida com todos os livros que formam o Novo Testamento data de 367. É um documento escrito pelo então arcebispo de Alexandria, Atanásio.

Em 393, no concílio de Hipona, pela primeira vez se instituiu o chamado cânone cristão, sob a liderança de nomes como o então presbítero Aurélio Agostinho, depois Santo Agostinho. Na virada do século IV para o V, a Bíblia tomaria a forma mais consolidada graças à tradução empreendida por São Jerônimo, que verteu os textos desse corpo para o latim corrente da época. A obra acabou conhecida como Vulgata.

Trento e a definição do cânone católico

Mesmo assim, havia mais debate do que consenso. São Jerônimo tinha reserva em relação a determinados livros que Santo Agostinho defendia. Esse processo se prolongou ao longo da Idade Média. O concílio de Florença, realizado de 1431 a 1445, é um evento que já trazia uma lista equivalente ao cânone atual.

O interessante dessa história é que foi somente com a Reforma Protestante que a Igreja Católica também se viu na necessidade de cravar, como verdade religiosa, a sua seleção canônica. A definição dogmática solene veio com o concílio de Trento, em 1546, no contexto da Reforma Protestante. Ali se confirmou como sagrados e canônicos os livros que hoje compõem a Bíblia Católica.

Trento não criou a Bíblia Católica. O concílio referendou o que já vinha sendo recebido na tradição há séculos. Referendou em resposta a um movimento dissidente que voltou às origens judaicas para reconhecer o que era, no seu entender, o legítimo.

O respeito aos livros considerados apócrifos

Para os protestantes, os sete livros excluídos passaram a ser considerados apócrifos. Mesmo assim, não podiam ser desprezados. Lutero escreveu sobre eles. Acreditava que, embora não pudessem ser equiparados aos das Sagradas Escrituras, era uma leitura boa e proveitosa. Talvez não tenham sido inspirados por Deus. Não tenham a mesma autoridade que os demais.

Desde a origem, os protestantes não se furtavam a ler e citar os livros considerados apócrifos. Teólogos contemporâneos tendem a lidar com muito respeito diante das versões alheias à sua denominação.

Expressões como Bíblia católica e Bíblia protestante são compreensivelmente utilizadas e não estão erradas, desde que não deem a entender que se tratam de dois livros inteiramente distintos, já que são, basicamente, as mesmas obras. São diferenças ligadas à história da formação e do reconhecimento do cânone do Antigo Testamento.

Conclusão: uma mesma fé, tradições distintas

Compreender por que a Bíblia evangélica é diferente da católica ajuda a olhar para as tradições cristãs com mais respeito e menos preconceito. As diferenças não estão no Novo Testamento, que é comum às duas tradições, mas no Antigo Testamento e no modo como cada comunidade reconheceu os livros que o compõem.

Os grandes eixos da fé cristã estão presentes nas duas tradições. Nenhuma das versões da Bíblia pode ser desprezada. O estudo da história do cânone não enfraquece a fé. Ao contrário, mostra como a Palavra foi transmitida, discutida, rezada e vivida ao longo dos séculos por comunidades que buscavam fidelidade a Deus.

Que essa reflexão nos ajude a cultivar humildade diante das tradições alheias e gratidão pela riqueza da história da fé cristã.

Para refletir

  1. Eu conhecia a história da formação do cânone bíblico?

  2. Como tenho tratado as tradições cristãs diferentes da minha?

  3. O que significa, para mim, saber que os grandes eixos da fé estão presentes nas duas tradições?

  4. Tenho buscado estudar a Palavra de Deus com maturidade e respeito pela história?

  5. Como posso cultivar humildade diante das diferenças entre denominações cristãs?

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