Introdução
Em um mundo cada vez mais conectado, onde culturas e crenças se encontram com mais frequência do que nunca, surgem perguntas profundas sobre nossa identidade e nosso lugar no grande mistério da existência. O que nos une como humanidade? Como podemos compreender as diferentes respostas religiosas às mesmas angústias do coração humano? A Declaração Nostra Aetate, promulgada pelo Concílio Vaticano II em 28 de outubro de 1965, oferece uma luz para essas questões, convidando-nos a olhar para as outras tradições religiosas com respeito e a reconhecer os laços espirituais que nos conectam especialmente ao povo judeu.
Este texto não é apenas um documento histórico; é um convite à reflexão sobre nossa própria fé e sobre como nos relacionamos com os outros em sua busca pelo divino.
As Perguntas que Nos Movem e a Resposta das Religiões
O documento começa por nos lembrar que todos os seres humanos compartilham uma origem e um destino comum: Deus. Independentemente de nossa cultura ou crença, carregamos as mesmas inquietações fundamentais. Hoje, como ontem, o coração humano se pergunta: “Que é o homem? Qual o sentido e a finalidade da vida? Que é o pecado? Donde provém o sofrimento, e para que serve? Qual o caminho para alcançar a felicidade verdadeira? Que é a morte, o juízo e a retribuição depois da morte? Finalmente, que mistério último e inefável envolve a nossa existência, do qual viemos e para onde vamos?”
Essas perguntas ecoam em cada um de nós, em momentos de silêncio ou de crise. A Igreja, ao olhar para as diversas religiões, reconhece que elas são tentativas sinceras de responder a esses enigmas.
A Percepção do Divino nas Tradições
Nostra Aetate destaca que, desde os tempos mais remotos, os povos percebem uma força oculta e transcendente, chegando, por vezes, ao conhecimento do Deus supremo. No hinduísmo, os homens perscrutam o mistério divino por meio de mitos e filosofia profunda, buscando a libertação das angústias através do ascetismo, da meditação e do refúgio amoroso em Deus. No budismo, reconhece-se a insuficiência deste mundo mutável e propõe-se o caminho para a libertação perfeita ou a suprema iluminação, seja por esforços próprios ou com auxílio superior.
A Igreja Católica nada rejeita do que há de verdadeiro e santo nessas religiões. Pelo contrário, olha com sincero respeito seus modos de vida, preceitos e doutrinas, vendo neles um “raio da verdade que ilumina todos os homens”. Ao mesmo tempo, a Igreja tem a missão de anunciar Cristo, o “caminho, a verdade e a vida”, mas o faz com um espírito de diálogo, incentivando seus filhos a reconhecer, conservar e promover os valores espirituais e morais encontrados nas outras tradições.
O Elo Especial com o Povo Judeu
Talvez a parte mais revolucionária e tocante da Nostra Aetate seja a seção dedicada à religião judaica. O texto nos convida a sondar o mistério da Igreja e a reconhecer um vínculo espiritual profundo com a descendência de Abraão.
Raízes Comuns na Fé
A Igreja de Cristo reconhece que os primórdios de sua fé e eleição já estão nos patriarcas, em Moisés e nos profetas. Todos os cristãos, como filhos de Abraão segundo a fé, estão incluídos na vocação do patriarca. É impressionante pensar que a salvação da Igreja foi misticamente prefigurada no Êxodo, a saída do povo escolhido da terra da escravidão. A Igreja não pode esquecer que foi por meio desse povo que recebeu a revelação do Antigo Testamento, alimentando-se da “raiz da oliveira mansa”, na qual os gentios foram enxertados.
O apóstolo Paulo nos lembra que dos judeus vem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas. Deles nasceu Cristo segundo a carne, e os próprios apóstolos e primeiros discípulos eram judeus. Este patrimônio espiritual é tão vasto que o Concílio recomenda vivamente o mútuo conhecimento e estima entre cristãos e judeus, especialmente através do estudo bíblico e do diálogo fraterno.
Repudiando o Antissemitismo e a Culpa Coletiva
O documento aborda com delicadeza e firmeza uma ferida histórica profunda. Lembra que, embora as autoridades judaicas da época tenham urgido a condenação de Cristo, não se pode imputar esse fato a todos os judeus de então, nem, muito menos, aos judeus de hoje. É um alerta crucial: os judeus não devem ser apresentados como reprovados ou amaldiçoados por Deus, pois as Escrituras não ensinam isso.
Mais do que isso, a Igreja, movida pela caridade evangélica e não por razões políticas, “deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus”. É uma declaração corajosa que nos convida a examinar nossa própria história e a eliminar qualquer resquício de preconceito em nossos corações e em nossas comunidades.
A Fraternidade Universal e a Reprovação de Toda Discriminação
Por fim, a Nostra Aetate nos leva a uma conclusão prática e fundamental: não podemos invocar Deus como Pai comum de todos se nos recusamos a tratar como irmãos aqueles que são criados à sua imagem. A relação com Deus está intrinsecamente ligada à relação com o próximo.
O documento afirma categoricamente que carece de fundamento qualquer teoria ou prática que introduza discriminação entre os homens, seja por raça, cor, condição ou religião. A Igreja reprova, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência baseada nesses motivos. O chamado final é para que os cristãos, seguindo o exemplo dos apóstolos, busquem viver em paz com todos, sendo verdadeiros filhos do Pai que está nos céus.
Conclusão: Um Chamado à Ação e à Reflexão
A Declaração Nostra Aetate é mais do que um texto; é um programa de vida para todos os que desejam seguir a Cristo de maneira autêntica. Ela nos desafia a sair do isolamento e a abraçar a riqueza da diversidade religiosa, reconhecendo a presença de Deus em todas as culturas. Especialmente, ela nos chama a curar as feridas do passado com relação ao povo judeu, construindo pontes de respeito e amizade.
Para Refletir e Viver:
- Como posso, no meu dia a dia, cultivar o respeito genuíno por pessoas de outras tradições religiosas, reconhecendo nelas a busca sincera pelo divino?
- De que forma posso aprofundar meu conhecimento sobre a fé judaica e o patrimônio espiritual que compartilhamos, superando preconceitos e desconhecimentos?
- Que atitudes concretas posso tomar para promover a justiça social, a paz e a liberdade para todos, combatendo qualquer forma de discriminação em meu ambiente?
Que a mensagem da Nostra Aetate possa ecoar em nossos corações, transformando nossa maneira de ver o outro e de viver nossa fé como um caminho de amor e unidade.
Referência:
CONCÍLIO VATICANO II. Declaração Nostra Aetate sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. Roma, 28 de outubro de 1965.


