A vida é uma travessia. Esta é a verdade fundamental que emerge das leituras bíblicas do XIX Domingo do Tempo Comum. Tanto o profeta Elias quanto os discípulos de Jesus experimentaram o que significa caminhar entre margens, enfrentar tempestades e descobrir que Deus não se revela no vento impetuoso ou no terremoto, mas na suavidade de uma brisa que restaura as forças.
Neste artigo, convidamos você a refletir sobre sua própria travessia cotidiana e reconhecer as passagens de Deus em meio às adversidades, aos medos e às dúvidas que nos fazem afundar.
A Vida como Travessia: Entre a História e a Eternidade
A primeira leitura do Livro dos Reis e o Evangelho nos apresentam duas travessias aparentemente distintas, mas profundamente conectadas. Elias foge pela perseguição da rainha Jezebel e atravessa o deserto extenuante até o monte Horebe, o monte de Deus. Os discípulos, por sua vez, atravessam o mar da Galileia de uma margem à outra, após o episódio dos pães.
Ambas as narrativas são símbolos da nossa vida cotidiana.
Nossa existência é precisamente isso: uma travessia de uma margem à outra. Da margem desta história, com suas vicissitudes, para a eternidade. É neste percurso que Deus se aproxima do ser humano, assim como se aproximou de Elias e dos discípulos, para revelar quem Ele é e quem somos nós, criados à sua imagem e semelhança.
Cada dia é um passo nessa caminhada. Cada desafio, uma onda que agita a embarcação. Cada alegria, um vislumbre da margem prometida.
A Gruta Onde Nos Escondemos
Na experiência do profeta Elias, Deus passa e sua presença é sentida em meio à angústia. E como é sentida? Como uma brisa suave. A passagem do Senhor fez Elias sair da gruta em que se escondia.
Talvez cada um de nós tenha uma gruta. Um lugar onde nos escondemos. Uma gruta de tantos nomes e imagens. Pode ser o medo do fracasso, a mágoa não resolvida, a autossuficiência que nos isola, ou a insegurança que nos paralisa. Deus nos convida a sair sempre, porque Ele vai passar qual uma brisa suave.
O que significa essa brisa? É a presença que não violenta, que não impõe, mas que restaura. Não é o vento impetuoso que derruba, nem o terremoto que arrasa. É a suavidade que acolhe e fortalece.
O Alimento para a Caminhada
No meio da travessia do deserto, Elias pede a Deus a morte. O caminho parecia longo demais, a perseguição pesada demais, a vida longa demais. Quantas vezes nós também sentimos isso? Quando a adversidade parece maior do que podemos suportar, desejamos que tudo termine.
Elias se deita à sombra de um junípero, entregue às suas próprias forças. E é justamente ali, no ponto de exaustão, que misteriosamente aparece o alimento necessário para continuar o caminho até o monte de Deus.
Deus nunca permite que a gente desista. Ele sempre quer que possamos ir adiante. A presença de Deus é o alimento que nutre a nossa caminhada. Não importa quanto tenhamos que caminhar, Ele nos sustenta.
O Deus Que Se Revela na Brisa
Chegando ao monte de Deus, Elias se esconde na gruta e é avisado que Deus iria passar. Ele se põe à entrada e experimenta a presença divina. Não como vento impetuoso, nem como terremoto, mas como brisa suave. Essa brisa que restaura a força, que alivia o rosto cansado e abatido.
Esta foi uma lição fundamental para Elias. O Deus de Israel não é um Deus que promove vingança, representada pelo terremoto ou pelo vento impetuoso. Também não é um Deus que patrocina o ódio. O Deus que se revela sobre o monte é misericordioso, compassivo, bondoso e suave como a brisa da tarde que restaura as forças e anima a ir adiante.
O Mar Agitado e a Presença de Jesus
A travessia dos discípulos acontece depois do episódio dos pães, onde Jesus se manifesta como o Messias que dá ao povo o pão necessário. O mar da Galileia, neste contexto, é símbolo da nossa vida cotidiana, onde o mal, qual vento contrário, ameaça a travessia.
O barco é agitado pelas ondas. O vento é contrário. Para a mentalidade bíblica, o mar simboliza o mal e a morte. O mal agita, tira a paz, tira a serenidade, tira a confiança. Agita, confunde e obscurece a alma. O mar agita e ameaça a vida humana, agita e ameaça a Igreja.
Mas o Senhor não é alheio aos nossos sofrimentos. No meio da madrugada, pelas três horas, Ele sai em socorro dos discípulos, caminhando sobre as águas.
Caminhar Sobre as Águas: O Símbolo da Divindade
Andar sobre as águas não é um simples truque. É uma afirmação teológica profunda. Como afirma o Salmo 89: “És tu que dominas o orgulho do mar. Quando as suas ondas se elevam, tu as amansas.” Jesus caminha sobre o mar para afirmar sua divindade. Ele tem poder sobre o mal e sobre a morte.
Quando o Senhor caminha sobre as águas agitadas, Ele está dizendo: “Eu domino o caos, Eu venço o mal, Eu tenho poder sobre aquilo que ameaça afundar você.”
Os Fantasmas que nos Impedem de Reconhecer o Senhor
O medo e a escuridão da noite fazem os discípulos confundirem Jesus com um fantasma. Sem fé, não podemos reconhecer o Senhor como Salvador. Sem fé, confundimos o Senhor com nossos fantasmas internos.
Que fantasmas interferem na imagem de Deus e impedem você de reconhecer o Senhor que vem ao seu encontro? Quais são seus fantasmas? Pode ser o medo do futuro, a culpa do passado, a baixa autoestima, a desconfiança em relação ao amor de Deus.
Mesmo diante da palavra de Jesus: “Sou eu. Coragem, não tenhais medo”, Pedro desafia o Senhor. Presunçoso, ele diz: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro caminhando sobre a água.”
E Jesus diz: “Vem!”
A Fé que Faz Caminhar e a Dúvida que Faz Afundar
Pedro sai do barco e caminha sobre a água. Enquanto confia na palavra de Jesus, ele caminha. Quando sente o vento, tem medo e duvida, começa a afundar.
A fé de Pedro é pequena. Jesus diz: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”
Pedro, neste momento de sua história, é alguém superficial e contraditório. É generoso, sim, mas sua generosidade é superficial. É incapaz de assumir o que pede e o que promete. Conhecemos Pedro pelo Evangelho: “Senhor, eu jamais te negarei, jamais te abandonarei.” Mas na hora mais crucial, ele negou e abandonou o Senhor.
No entanto, essa é a vida de Pedro que nos dá esperança. Tudo pode ser transformado em nós pelo encontro com o Ressuscitado.
Pedro é alguém que quer se mostrar diferente dos companheiros, talvez pelo fato de gozar de alguma confiança de Jesus. Mas quando os fatos da existência o afetam de cheio, ele se dá conta de que o mar é traiçoeiro. Ele percebe que foi presunçoso, que calculou mal suas próprias forças, que não contou com sua debilidade. Por vaidade, fez mais do que podia fazer. Ele duvidou.
O Remédio para o Afundamento
Apesar de tudo isso, nem tudo está perdido para Pedro. Como disse o Papa Francisco: “Não há fim de linha para ninguém, nem estrada sem saída.”
Só há um remédio para Pedro: estender humildemente a mão a Jesus e gritar por ajuda. E ainda aceitar de bom ânimo a reprovação pela pouca fé e reconhecer que se equivocou.
O Senhor resgatou Pedro, como nos resgata.
O que faz Pedro afundar é o medo, a dúvida, a falta de confiança na palavra do Senhor. Pedro é um homem de pouca fé, mergulhado em sua fraqueza por causa de sua incredulidade. Mas ele experimentará depois a força do braço do Senhor que o arrancou do poder do mal e da morte.
Seguir Jesus e Não Apenas Imitá-lo
Quando Pedro pede: “Senhor, se és tu, manda-me ir a ti caminhando sobre o mar”, Jesus responde: “Vem!” Esta palavra “Vem” é a mesma do chamado dos primeiros discípulos: “Vinde após mim”. Portanto, essa palavra de Jesus a Pedro diz respeito ao seguimento, não à imitação de Jesus.
Isso significa que Pedro não pode salvar a humanidade do poder do mal e da morte. Somente Jesus pode nos salvar. Só há um Salvador: Jesus.
Quando Pedro pensa em poder ocupar o lugar de Jesus como salvador, ele começa a afundar. Mas quando ele grita: “Senhor, salva-me!”, aí ele começa a seguir Jesus. Quando ele precisa de ajuda, ele começa a seguir Jesus.
A Profissão de Fé
Não resta senão a profissão de fé com a qual o trecho do Evangelho termina: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus.”
Este é o ponto de chegada de toda travessia. Reconhecer que Jesus é o Senhor, o Filho de Deus, aquele que tem poder sobre o mal e sobre a morte. É nesta confissão que encontramos a margem segura.
Para Refletir
Ao final desta reflexão, convidamos você a se perguntar:
- Qual é a gruta onde você tem se escondido? O que te impede de sair ao encontro da brisa suave de Deus?
- Quais são os fantasmas internos que confundem a imagem de Deus e te impedem de reconhecer o Senhor que vem ao seu encontro?
- Em que momentos da sua vida você tem tentado ocupar o lugar de Jesus, confiando apenas em suas próprias forças, e tem sentido que está afundando?
- O que significa para você, hoje, ouvir a palavra de Jesus: “Vem!”?
A travessia continua. O vento pode ser contrário, as ondas podem agitar a embarcação, mas o Senhor caminha sobre as águas. Ele não é alheio ao seu sofrimento. Ele vem ao seu encontro. Basta estender a mão e gritar: “Senhor, salva-me!”
Referência
MISSA DO XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM. [S.l.], 9 ago. 2026. Documento litúrgico. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=2Co_P6Bvlb8>. Acesso em: 9 ago. 2026.


