Introdução: o convite a assumir as consequências das nossas escolhas
De maneira geral nós temos muita dificuldade em assumir as consequências das nossas opções e das nossas ações. Nós sempre buscamos um culpado para as nossas mazelas. Essa é a constatação que abre a reflexão proposta para o XXVI Domingo do Tempo Comum.
A Palavra de Deus, porém, nos conduz por outro caminho. Ela nos convida a olhar com verdade para a própria vida e a reconhecer a nossa responsabilidade, sem transferir a Deus a culpa pelo que vivemos. A conversão, tema central das leituras deste domingo, aparece como um chamado urgente e amoroso ao retorno.
A tentação de culpar Deus pelas nossas mazelas
O povo de Ezequiel e a acusação contra Deus
Nos eximindo de toda responsabilidade, o trecho do livro de Ezequiel que ouvimos exprime essa dificuldade. O povo andava dizendo que a conduta do Senhor não era correta. Deus, então, reage a essa acusação e pergunta: é a minha conduta que não é correta ou é a vossa?
Frente à iminência do exílio, o profeta Ezequiel exerce o seu ministério durante o exílio na Babilônia, enquanto o profeta Jeremias ficou na terra de Judá. Na iminência do exílio e já no exílio, o povo blasfema contra Deus, pondo nele a culpa pelo seu fracasso e pela sua infidelidade. Acusam Deus de não proceder bem e atribuem a Ele o castigo de enviar o povo para o exílio na Babilônia.
Frente a tal acusação, caluniosa e desprovida de qualquer verdade, Deus não se cala diante da injustiça. É Ele quem revela as faltas do seu povo.
O exílio como fruto de escolhas equivocadas
O exílio, podemos dizer, foi o fruto podre das alianças políticas equivocadas e consequência do abandono, por parte do povo, do Deus que os havia libertado do país da servidão no Egito.
Na visão do autor bíblico, o exílio foi a consequência do abandono da aliança que Deus havia feito com o seu povo. Foi consequência da opção de viver distante do Deus único e verdadeiro, e portanto na aparência da fé. A injustiça que o povo de Deus cometeu foi a de abandonar os mandamentos do Senhor para seguir as inclinações más do seu próprio coração.
O risco do nosso tempo: perder as referências fundamentais
O relativismo e a autonomia absoluta da consciência
Meus irmãos e minhas irmãs, talvez esse seja um grande risco também para o tempo em que nós estamos vivendo. Perder as referências fundamentais para a vida, perder Deus de vista e assumir o relativismo como um modo de viver.
O que se reitera e se exige hoje é a autonomia absoluta da consciência. Não obstante tudo, isso supera a teologia da retribuição. Deus não nos trata segundo a nossa falta, nem é Ele que está na origem dos nossos males.
Não coloquemos a culpa em Deus
Não ponhamos a culpa em Deus pelo que nós vivemos na nossa vida pessoal, pelo que nós vivemos na sociedade, pela situação dramática por que passa o nosso mundo. Não coloquemos a nossa culpa em Deus, pois Ele não nos trata segundo as nossas faltas.
Essa não é a lógica de Deus. Como cantávamos reiteradamente no Salmo, o nosso Deus é um Deus de ternura, que age com misericórdia. Ele não tem a nossa lógica do toma lá, dá cá. A lógica de Deus é a lógica da misericórdia, de nos oferecer o que nós não merecemos.
A lógica da ternura e da misericórdia
A lógica de Deus é a lógica da ternura, de dar o que nós não merecemos, de dar aquilo que é Dele. Em Deus só há ternura. Em Deus só há amor. Em Deus não existe o que existe no ser humano: o espírito da vingança, do revanchismo, do fatalismo. Em Deus não há esse espírito. Em Deus só há amor, só há ternura, só há compaixão, só há misericórdia, só há amor propriamente dito.
Deus, agindo em nós, é quem provoca a conversão e acolhe todo o pecador que se converte.
Conversão: um apelo a assumir a verdade de si mesmo
A correção da imagem equivocada de Deus
Nesse sentido, o texto de hoje do profeta Ezequiel é um apelo à conversão. Há uma mudança de mentalidade, uma correção da imagem equivocada de Deus como um Deus que castiga. Ao contrário, é um Deus que aceita a nossa fraqueza e que nos dá a sua força, para que nós possamos vencê-la.
Mas não é um Deus que exclui, não é um Deus que condena. É um Deus que sempre acolhe, não importa a nossa falta.
Assumir a responsabilidade, ainda que coletiva
É um apelo a assumir a verdade de si mesmo, ainda que seja um coletivo. Ainda que nós possamos dizer: nós todos erramos, nós todos equivocamos, nós todos enveredamos por um caminho que nos fez distantes de Deus e de sua vontade propriamente dito.
Conversão para assumir a nossa responsabilidade. É a minha conduta que não é correta ou antes é a vossa conduta que não é correta? É uma pergunta a ser respondida.
A parábola dos dois filhos: entre o dizer e o fazer
O contexto literário da parábola
O trecho do Evangelho trata da conversão como um caminho para fazer a vontade de Deus. É necessário situarmos essa breve parábola dos dois filhos de Mateus no conjunto do Evangelho em que ela se encontra.
Ao entrar em Jerusalém, Jesus foi aclamado como filho de Davi, portanto como Messias. Em seguida, à sua entrada em Jerusalém e à aclamação dele como Messias, ele expulsa do templo os vendedores, os compradores e os cambistas que impediam que o templo fosse uma casa de oração. E o Senhor ainda secou uma figueira porque ela não dava frutos. Que coragem!
A pergunta dos sacerdotes e anciãos
Tudo isso deixou os chefes dos sacerdotes e os anciãos indignados, furiosos e cheios de inveja. É nesse contexto que tais autoridades religiosas perguntam a Jesus: com que autoridade fazes essas coisas? Quem te concedeu essa autoridade?
Talvez em nossa linguagem atual nós pudéssemos parafrasear a pergunta deles nesses termos: quem é que você está pensando que é? Para fazer o que faz? Quem você pensa que é? Coloque-se no seu lugar.
Jesus não responde à questão posta por eles, porque eles se recusaram a responder à questão posta por Jesus acerca de João Batista. O batismo de João de onde era? Do céu ou dos homens? Isto é, o batismo de João era pura invenção do espírito humano?
As três parábolas e a reação dos opositores
Jesus endereça a eles, aos sacerdotes e aos anciãos do povo, três parábolas: essa que nós ouvimos hoje, a dos dois filhos, e duas parábolas que se seguirão, a parábola dos vinhateiros homicidas e a parábola do banquete nupcial.
Essas três parábolas deixaram os sacerdotes e os anciãos do povo ainda mais enfurecidos contra Jesus. A carapuça, na verdade, serviu para eles. Diz o nosso texto: ouvindo essas parábolas, perceberam que Jesus se referia a eles, procuravam prendê-lo, mas ficaram com medo das multidões, pois elas consideravam Jesus como profeta.
Duas atitudes possíveis diante do chamado de Deus
A parábola dos dois filhos que nós ouvimos representa duas atitudes possíveis diante do chamado de Deus. Jesus introduz a parábola com um convite ao engajamento dos seus opositores, isto é, os sacerdotes e os anciãos do povo, perguntando: o que vos parece? Sobre o que eu vou dizer, qual é a opinião de vocês?
É um convite a pensar, a que eles pensem, a que nós pensemos, a que eles tomem uma posição, a que nós tomemos também uma posição. A pergunta dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos, com que autoridade faz todas essas coisas, revela a resistência deles em reconhecer a origem divina de Jesus. Eles desejam desmascarar e desmoralizar Jesus, mas diante de Jesus é a máscara deles, a máscara de uma religião da aparência hipócrita, que cai por terra.
O filho que disse não e depois foi
O filho que num primeiro momento disse não ao seu pai, num ato de desobediência, depois repensa a sua atitude e acaba indo trabalhar na vinha. Essa conversão, essa mudança de atitude à palavra do pai, vale mais do que aquele que disse sim, talvez numa atitude primária, ao estilo do fogo de palha, mas não obedeceu e não foi trabalhar na vinha.
Ele não foi capaz de manter a sua palavra e o compromisso diante do pai a quem lhe disse: eu vou, mas não foi.
A ação é que nos define
Ora, uma pessoa de verdade é reconhecida por seus atos e não por suas intenções. Não intenções. No ditado popular nós dizemos: das boas intenções o mundo está cheio.
É curioso, um comentarista de futebol merece um estudo particular, não é verdade? É uma pessoa que em fração de segundo muda de opinião por causa de uma jogada isolada, mas é uma pessoa que, diante do outro que quebrou a perna do adversário, ele diz: ele não teve a intenção de fazer. Meu caro, a perna está quebrada, é o que importa.
A ação é que nos define, não são nossas intenções. A ação que nos define. Nós podemos reconhecer na nossa ação as nossas intenções.
A distância entre o dizer e o fazer
Na verdade, essa parábola dos dois filhos fala da distância que pode haver entre o dizer e o fazer. Entre a profissão de fé e a nossa vida de cada dia, que não traduz o que nós professamos pela boca. É disso que fala a palavra, a parábola, é dessa distância.
Nesse sentido a parábola é um convite a encurtar essa distância entre o dizer e o fazer, entre a profissão de fé e a nossa vida de cada dia, onde a nossa fé devia ser verificada através da nossa atitude, de nossas ações, do modo como nós vivemos a nossa existência, das opções que nós fazemos a cada dia. É isso que importa.
Os publicanos e as prostitutas precedem no Reino
O banquete e a dignidade dos convidados
Imaginemos agora um banquete em que os lugares, naquela época, eram distribuídos em função da dignidade das pessoas. Por isso, Jesus, no capítulo sétimo de São Lucas, vai dizer: quando fores convidado para uma festa, não escolha o primeiro lugar, porque não está reservado para você. Assim eram distribuídos os banquetes, em função da dignidade das pessoas.
O anúncio de Jesus e a surpresa do Reino
O anúncio de Jesus significa que os publicanos e as prostitutas, que eram desprezados como pecadores, como pessoas impuras, portanto desprovidas da graça de Deus, ocuparão no Reino dos Céus o lugar reservado aos sacerdotes e aos anciãos do povo.
Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Por quê? Porque eles ouviram a pregação de João Batista e se converteram. Jesus disse: João veio até vós num caminho de justiça e vós não acreditastes nele.
A fé é um agir justo
O que Jesus quer dizer é exatamente isso: João Batista vivia como um justo e ensinava o que fazer para ser justo, conforme ao que Deus esperava das pessoas e espera de todos nós.
Meus irmãos e minhas irmãs, a fé não é um pensar justo. A fé não é um pensar justo, mas a fé é um agir justo, isto é, um agir em conformidade com a vontade de Deus. Isso é a fé. Não é um pensar justo, é um agir justo, um agir em conformidade com a vontade de Deus, em conformidade com aquilo que Deus quer do ser humano e que Deus em particular quer de nós, como homens e mulheres de fé.
Onde está a vontade de Deus? Como descobri-la? Só meditando o Evangelho de Jesus Cristo. De algum modo, a vontade de Deus para nós está escondida lá, como um tesouro escondido num campo.
A conversão como fruto da escuta atenta de Deus
A resistência dos sumos sacerdotes e anciãos
A conversão, meus irmãos e minhas irmãs, é fruto da escuta atenta de Deus. Os sumos sacerdotes e os anciãos do povo, ao contrário, resistiram em crer em João Batista, como resistirão e resistem em crer em Jesus. Apesar de terem visto as boas obras de João, eles não se converteram, diz o texto, para crer em João.
Que vos parece? A pergunta dirigida a cada um de nós
A pergunta introdutória da parábola pode muito bem ser dirigida a cada um de nós, e a nós todos, que somos o corpo de Cristo, a Igreja. Que vos parece?
Qual é a sua opinião? Que tipo de cristão você é? Cristão do blá, blá, blá? Do senhor, senhor? Que tipo de cristão você é? Você é uma pessoa que escuta de verdade a Palavra de Deus e a põe em prática? É exemplo de Nossa Senhora, o modelo de todo discípulo. Você é autêntico?
Você é autêntico? Isto é, você é si mesmo? Ou está em busca da aprovação e do prestígio de outras pessoas?
A distância entre a fé professada e a fé vivida
Olhando com verdade para a sua própria vida, o chamado de Deus, a sua palavra, tem provocado em você um verdadeiro processo de conversão? Isto é, diminuindo a distância entre o dizer e o fazer, entre a fé professada e a fé vivida. Tem diminuído essa distância? Vocês estão vendo o abismo lá.
Eu dizia há pouco que a fé não é um pensar justo, a fé é um agir justo e um agir que é consequência da palavra que entrou e produziu fruto no mais profundo do nosso coração.
Conclusão: converter-se à ternura e à coerência
Que Deus nos conceda nesse dia do Senhor que o Espírito de Cristo habite em nós de tal modo que nós não façamos nada, como diz São Paulo no trecho da carta aos Filipenses que nós ouvimos, que nós não façamos nada por competição ou vanglória.
Com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante. E não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro. Que Deus nos conceda a graça de que nós nos convertamos à ternura.
O mundo precisa de ternura. Esse mundo tão agressivo que nós vivemos precisa de ternura, precisa de empatia, precisa de compaixão, precisa de perdão, precisa que nós nos esforcemos por criar pontes de reconciliação e não aprofundar as diferenças. Precisa que nós possamos imitar o coração de Deus, que não nos trata segundo as nossas faltas, mas sempre está disposto a nos perdoar.
O nosso mundo precisa de pessoas, sobretudo, que sejam sacramento da compaixão e do amor de Deus por todas as pessoas. Sabe do que o mundo precisa? De gente coerente, de cristão coerente. Disso o mundo precisa.
O Senhor tinha autoridade que os seus opositores não reconheciam, porque eles sofriam de esclerocardia, de dureza do coração. Tinha autoridade porque ele era uma pessoa coerente. A sua vida era coerente e a sua vida estava em perfeita conformidade com o que Deus quis para ele. Coerência.
Enquanto nós não formos coerentes com o que nós cremos, o mundo não será melhor e nós não seremos para o mundo aquilo que Jesus diz no início do sermão da montanha de Mateus: luz do mundo e sal da terra. Coerência.
Que Deus nos conceda essa graça.
Para refletir após a leitura
-
Tenho assumido as consequências das minhas opções e ações, ou tenho buscado culpados para as minhas mazelas, inclusive culpando Deus?
-
A minha fé é apenas um pensar justo ou tem se tornado um agir justo, em conformidade com a vontade de Deus?
-
Qual é a distância entre o que eu digo professar e o que eu vivo no meu dia a dia? Essa distância tem diminuído?
-
Tenho buscado a aprovação e o prestígio das pessoas, ou tenho procurado ser autêntico diante de Deus?
-
O meu chamado de Deus tem provocado em mim um verdadeiro processo de conversão?
-
Tenho me esforçado por criar pontes de reconciliação ou tenho aprofundado as diferenças?
-
A minha vida tem sido coerente com aquilo que creio, de modo a ser luz do mundo e sal da terra?
Referência
HOMILIA da Missa do XXVI Domingo do Tempo Comum. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VV_AzWPvNcg. Acesso em: 27 set. 2026.


