A liturgia do XXIII Domingo do Tempo Comum nos convida a mergulhar em uma das experiências mais delicadas da vida cristã: o cuidado com o outro. Em meio a um mundo marcado pela indiferença e pelo individualismo, as leituras de Mateus 18,15-20, Ezequiel 33 e a carta de Paulo nos oferecem um caminho contraintuitivo para lidar com as feridas e conflitos que inevitavelmente surgem em nossas relações.
O que significa realmente “vigiar” o irmão? Como corrigir com amor? E por que Jesus insiste que devemos ir ao encontro daquele que nos ofendeu?
A Vigilância que Cura, Não a que Controla
Quando ouvimos a palavra “vigia”, nossa mente frequentemente evoca imagens de controle, julgamento e condenação. Afinal, todos nós já fomos vigiados por alguém que nos controlou, julgou e muitas vezes nos condenou. No entanto, a primeira leitura do profeta Ezequiel nos apresenta uma perspectiva radicalmente diferente.
O Senhor estabelece Ezequiel como vigia para a casa de Israel. Mas este vigia não é aquele que fiscaliza para punir. Pelo contrário, é alguém que se preocupa por alguém, que cuida. Vigiar, nesse contexto, é cuidar. É ter a atenção voltada para o outro com a sensibilidade de quem deseja proteger e auxiliar.
A imagem do pastor que vigia suas ovelhas, tão cara às Sagradas Escrituras, nos ajuda a compreender essa dinâmica. O pastor não está ali para controlar, mas para guiar, proteger e garantir que nenhuma ovelha se perca. Da mesma forma, todos nós somos chamados a ser vigias uns dos outros. A vida do outro me interessa, não por curiosidade ou fofoca, mas porque tenho como missão cuidar dele.
A Responsabilidade do Cuidado Mútuo
Essa vigilância amorosa começa em casa, na família. Pensemos nos pais que acompanham atentos os primeiros passos de um filho pequeno, prontos para ampará-lo se ele cair. Essa mesma atenção deve permear todas as nossas relações comunitárias. A frase tão comum em nossos dias — “a vida do outro não me interessa” — não pode ser um lema para quem segue Jesus.
O Papa Francisco nos recorda com uma expressão que marcou seu pontificado: “Ninguém se salva sozinho”. A vida cristã não é uma jornada individual. O indivíduo é importante porque forma a comunidade, mas é na comunhão que encontramos a salvação. Como dizia a Escritura: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor”.
Quando o Irmão Peca Contra Ti: O Verbo que Transforma
O Evangelho de Mateus começa com uma palavra que merece toda nossa atenção: “Vai”. Se o teu irmão pecar contra ti, vai. Não fique paralisado pela mágoa, não se esconda no silêncio, não alimente o ressentimento. Vai.
Mas para onde vamos? Infelizmente, nossa tendência natural é ir a terceiros. Procuramos outros para compartilhar nossa dor e, muitas vezes, espalhar a ofensa. É assim que nasce a fofoca, esse vício tão perigoso e destruidor na vida comunitária.
O Poder Destrutivo da Fofoca
Uma antiga história ilustra bem esse problema: uma pessoa foi confessar ao padre que havia falado mal de outros na comunidade. O sacerdote lhe deu uma penitência: subir ao alto da torre da igreja, rasgar um travesseiro de plumas e depois descer para recolher cada uma das penas espalhadas.
— Mas padre, isso é impossível! — exclamou a pessoa.
— Por quê?
— Porque as penas voaram para longe, não posso mais recolhê-las.
O padre então respondeu: “Esse é o poder de uma fofoca. Elas voam para longe e depois não conseguimos mais controlá-las”.
Jesus nos ensina o caminho oposto. Não devemos ir a outros para espalhar a ofensa. Devemos ir diretamente à pessoa que nos machucou. É o caminho da correção fraterna, que encurta distâncias em vez de ampliá-las.
A Correção que Ganha o Irmão
Aqui está o segredo da liturgia da palavra deste domingo. Muitas vezes, o problema não está no que o outro me fez, mas como eu vou a ele. É São Paulo quem nos orienta: “O amor não faz o mal”. Portanto, quando vou ao irmão que pecou contra mim, devo ir com amor, não com mais mal ainda.
A Diferença entre Correção Fraterna e Julgamento
A correção fraterna é feita com amor. Se não há amor, não é fraterna, é outra coisa. É julgamento, é condenação. E aqui retornamos à imagem do vigia: quem vigia com amor, vigia cuidando.
Jesus não nos convida a apontar o dedo ou a buscar ter razão. Em nenhum momento Ele usa a palavra “razão”. O objetivo final da correção é belíssimo: ganhar o irmão. Ganhar, não perder. Ganhar, não destruir. Ganhar, não vencer uma discussão.
Como se ganha um irmão? Pelo amor, com amor. É o amor que constrói pontes onde havia muros; que restaura onde havia ruptura; que reconcilia onde havia afastamento.
Quando a Correção Vira Destruição
Recordemos uma experiência comum em comunidades religiosas: a chamada “correção fraterna” que, na prática, se transforma em um exercício de apontar defeitos. Jovens reunidos em círculo para dizer um ponto negativo do outro. Alguém chegou a comparar o irmão a uma víbora que lança veneno. Isso não tem nada de fraterno! É destruição pura.
Jesus nos convida exatamente ao contrário. É ganhar o outro, acolhendo-o com amor mesmo em meio ao conflito. É olhar para o irmão não como um adversário a ser vencido, mas como alguém que merece ser resgatado para a comunhão.
Onde Está Jesus?
O Evangelho termina com uma promessa maravilhosa: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles”.
Percebam o contraste. Onde está o diabo? Na divisão. A palavra “diabo” significa justamente aquele que divide, que separa. Jesus, por sua vez, está na reunião, na comunhão, no encontro fraterno.
A liturgia de hoje nos convida a fazer uma passagem: das feridas e mágoas que o irmão nos causou para a união na comunidade. É um movimento de sair do isolamento da ofensa para a acolhida do perdão e da reconciliação.
Conclusão: A Única Dívida que Devemos Dever
O apóstolo Paulo nos lembra que a única dívida que devemos dever é o amor. O amor não faz o mal, mas constrói, cura, reconcilia e ganha o irmão.
Neste domingo, somos desafiados a refletir sobre nossa vigilância com o outro. Somos vigias que controlam e condenam, ou vigias que cuidam e protegem? Quando somos feridos, vamos a terceiros espalhar a ofensa, ou vamos ao encontro do irmão para ganhá-lo?
A comunidade cristã se edifica sobre o amor fraterno, que se manifesta na correção feita com mansidão, na busca sincera pela reconciliação e na certeza de que Jesus está presente onde há união.
Para Refletir
Ao final desta reflexão, convido você a se perguntar:
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Quais são as pessoas que estão sob minha responsabilidade de cuidar e vigiar? Em minha família, comunidade, local de trabalho, quem precisa da minha atenção amorosa?
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Como tenho reagido quando alguém me fere? Tenho ido diretamente à pessoa ou tenho espalhado a ofensa a outros?
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Minhas palavras e atitudes de correção têm ajudado a ganhar o irmão ou têm contribuído para perdê-lo?
Que possamos, com a graça de Deus, fazer essa passagem em nossa vida: da indiferença ao cuidado, da fofoca ao diálogo direto, da condenação à correção fraterna, da divisão à comunhão. Que a única dívida que carreguemos seja a do amor, sempre a pagar e sempre a receber.
REFERÊNCIA
Documento base: Homilia do Evangelho Mateus 18,15-20 | Missa do XXIII Domingo do Tempo Comum | 06/09/2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=a3t9X4vSQxw


