A Bíblia que nos une e nos separa: repensando a leitura do Antigo Testamento

A Bíblia que nos une e nos separa: repensando a leitura do Antigo Testamento Você já parou para pensar que

Antigo e novo testamento

A Bíblia que nos une e nos separa: repensando a leitura do Antigo Testamento

Você já parou para pensar que o livro que você tem em mãos, essa coleção de textos antigos que chamamos de Bíblia, carrega dentro de si uma tensão que poucos percebem? Que a primeira parte dela, o Antigo Testamento, é um texto originalmente judaico, e que os cristãos, ao abraçá-lo como parte de sua Escritura, criaram uma relação cheia de ambiguidades?

Pois é. Essa relação é muito mais complicada do que imaginamos.

Quando a herança vira problema

Lá pelo século II, Marcião[i] resolveu rejeitar completamente o Antigo Testamento. Para ele, o Deus das Escrituras judaicas não tinha nada a ver com o Deus revelado por Jesus. A Igreja, na época, reagiu e disse “não”: não dava para jogar fora o Antigo Testamento, porque a própria Igreja se sustentava sobre esse alicerce.

Mas aí vem o nó da questão. A Igreja, ao preservar o livro, acabou tomando um atalho perigoso. Ela se declarou a verdadeira destinatária daquelas Escrituras. Autoproclamou-se “o verdadeiro Israel”. E, desde então, a opinião cristã predominante é que só a Igreja sabe de fato o que Deus quis revelar nos textos de Israel.

Temos, então, o chamado marcionismo latente. Um preconceito disfarçado, que respira nas entrelinhas de muitas pregações e leituras.

Três jeitos tortos de ler o Antigo Testamento

Há três modelos que dominaram a leitura cristã do Antigo Testamento. E nenhum deles é realmente justo com o que o próprio texto tem a dizer.

  • O modelo do contraste

Nessa visão, o Antigo Testamento serve apenas para mostrar o nosso fracasso. Ele revela nossos anseios por felicidade terrena, nossa vontade de poder, nossa mania de querer nos salvar pelos nossos próprios esforços. É o “livro do nosso fracasso”, nas palavras de um teólogo citado no texto.

Aí o Novo Testamento entra como o alívio: a graça, a redenção, o reino que não é deste mundo. O Antigo fica sendo só o fundo escuro para a luz brilhar mais forte.

  • O modelo da relativização

Aqui, o Antigo Testamento é tratado como “servo” do Novo. Sua função é preparar o terreno, anunciar o que viria depois. Ele é promessa, prefiguração, modelo imperfeito da realidade plena que chegou com Jesus.

  • O modelo evolutivo

Nesse terceiro jeito de ler, o Antigo é a semente que necessariamente germina na flor do Novo Testamento. Tudo que estava lá apontava para cá, e o Novo é a única medida para decidir o que, na imensa variedade do Antigo, vale como revelação. Chega-se ao ponto de dizer que a verdadeira língua da revelação não é o hebraico, mas o grego do Novo Testamento.

O que esses três modelos têm em comum? nenhum deles respeita a autocompreensão dos próprios textos do Antigo Testamento. Nenhum faz justiça à complexidade daquela biblioteca inteira. E, pior, todos respiram, ainda que sem intenção, um certo “ensino de desprezo” que alimentou o antissemitismo ao longo da história.

O grito da Shoah e a redescoberta das raízes

Foi preciso o horror da Shoah[ii] para que a Igreja começasse a enxergar com outros olhos. A perseguição aos judeus, motivada em parte por esse veneno teológico disfarçado, forçou uma redescoberta dolorosa.

O Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate, reconheceu algo fundamental: a Igreja está ligada espiritualmente ao tronco de Abraão. Não é que a Igreja substituiu Israel. Ela foi enxertada na raiz da boa oliveira, como ramo silvestre. Em 1986, João Paulo II visitou a sinagoga de Roma e disse algo que ecoa forte: “Para nós a religião judaica não é algo exterior, mas de certo modo faz parte do ‘interior’ de nossa religião“. E chamou os judeus de “irmãos mais velhos“.

Essa redescoberta pede uma nova maneira de ler o Primeiro Testamento. Uma maneira que não tente apagar sua dimensão judaica permanente, que não ignore que ele continua sendo fonte de vida para o judaísmo pós-bíblico.

Uma sinfonia propositalmente tensa

Somos convidados, portanto, a escutar a Bíblia hebraica como uma sinfonia polifônica. Sabe o que isso quer dizer? Que as vozes diferentes, as contradições, os tons que se chocam, se complementam, se repetem, se contradizem — tudo isso foi intencional.

Os organizadores do cânon não eram descuidados. Eles não deixaram as tensões por acaso. Eles as preservaram de propósito, por interesse teológico. A “unidade” do Antigo Testamento não é uma unidade sistemática, com um centro único e uma doutrina arrumadinha. É uma unidade complexa, cheia de tensões, assistemática, rica em contrastes.

Dessa forma, em vez de “unidade”, falemos de um “nexo”. Um nexo dramático, que provoca o debate e a controvérsia em torno da verdade de Deus. A canonização dessas vozes diversas é, na verdade, a institucionalização do diálogo intrabíblico.

A rivalidade que nos ensina

Aqui está uma proposta que pode mudar nossa leitura: que tal tratar Antigo e Novo Testamento como rivais? Não rivais inimigos, mas parceiros de debate. Cada um com sua voz própria, sua perspectiva, sua contribuição.

O Primeiro Testamento não precisa ser lido sempre com os “óculos” do Novo. Ele pode e deve ser lido como um texto compreensível em si mesmo. “Como se o Novo Testamento não existisse”. Quando fazemos isso, ele se torna desafiante. Ele apresenta objeções saudáveis a discursos apressados do Novo Testamento. E, em outras áreas, admite ser questionado ou complementado por ele.

O que emerge desse confronto é uma leitura nova, produtiva, que nenhum dos dois testamentos sozinho poderia oferecer.

Duas leituras, uma mesma Escritura

Judeus e cristãos leem os mesmos textos. Mas os leem de maneiras diferentes. Os judeus leem como Tanak[iii], no horizonte da Torá oral e do Talmude[iv]. Os cristãos leem como Primeiro Testamento, no horizonte do Novo Testamento.

O importante é que essas diferenças não se tornem antagonismo. Temos, então, uma “hermenêutica da dialogicidade canônica“. Bonito, não? Significa que as duas partes da nossa Bíblia precisam ser colocadas em diálogo produtivo, em disputa fecunda sobre o testemunho do Deus único.

E mais: os cristãos podem aprender com a leitura judaica. Não para copiá-la, mas para se deixar desafiar por ela. Assim como os judeus podem se deixar interpelar pela leitura cristã. Sem que um lado se coloque como mestre do outro.

O que isso tem a ver com a minha vida?

Você pode estar pensando: “tudo isso é muito bonito, mas o que muda no meu dia a dia?”

Muda tudo. Porque a maneira como lemos a Escritura molda a maneira como enxergamos o outro, como nos relacionamos com quem é diferente, como entendemos o próprio Deus.

Se eu leio o Antigo Testamento apenas como um trampolim para o Novo, corro o risco de desprezar a fé judaica como ultrapassada. Se eu ignoro as vozes dissonantes da Bíblia, corro o risco de criar um Deus feito à minha imagem, arrumadinho, sem arestas. Se eu não permito que o texto me conteste, que ele me cause estranheza, minha fé pode se tornar uma bolha confortável, mas vazia.

O convite é para uma leitura mais humilde. Que reconhece que o texto é maior do que minhas interpretações. Que a verdade de Deus é mais vasta do que minha tradição consegue abarcar. Que o outro, mesmo lendo a mesma Escritura de forma diferente, pode me ensinar algo sobre o Mistério que habita aquelas palavras.

Para refletir

Como você tem lido o Antigo Testamento? Como um mero prefácio do Novo, ou como uma voz que merece ser ouvida em sua própria integridade?

O que muda na sua visão sobre o povo judeu quando você reconhece que eles são “irmãos mais velhos” na fé, e não apenas um povo que ficou para trás?

E você, consegue suportar a tensão? Consegue conviver com as contradições da Bíblia sem querer resolvê-las rapidamente, sem forçar uma harmonia que não existe?

Quem sabe a verdadeira leitura da Escritura não começa exatamente aí: na disposição de entrar no diálogo, de escutar vozes que nos desafiam, de permitir que o texto, em toda a sua polifonia, nos transforme.

Referência

ZENGER, Erich. 2. Introdução ao Antigo Testamento. In: ZENGER, Erich et al. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Loyola, 2003. p. 21-28.

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[i] Marcião de Sinope (c. 85 – c. 160 d.C.) foi um rico teólogo cristão primitivo do século II. Ele ficou conhecido como um dos maiores heresiarcas da história por criar o marcionismo, uma doutrina que rejeitava totalmente o Antigo Testamento e o Deus judaico.

Para Marcião, o Deus do Antigo Testamento era uma divindade severa e criadora do mundo material, enquanto o Pai de Jesus Cristo era um Deus completamente diferente, de amor e pura misericórdia.

[ii] A Shoah (termo hebraico que significa “catástrofe” ou “ruína”) é a designação preferida pelo povo judeu para o Holocausto. Trata-se do extermínio sistemático e industrial de cerca de 6 milhões de judeus pela Alemanha nazista e seus colaboradores durante a Segunda Guerra Mundial.

[iii] O Tanakh (ou Tanach) é a Bíblia Hebraica e o texto central do Judaísmo. É um acrônimo que representa as três partes que compõem a obra: Torá (Instrução ou Lei), Nevi’im (Profetas) e Ketuvim (Escritos). Ele contém 24 livros e corresponde, em grande parte, ao que é chamado de Antigo Testamento no Cristianismo.

[iv] O Talmude (do hebraico “estudo” ou “aprendizado”) é uma vasta coletânea de textos sagrados do judaísmo rabínico que registra debates, leis, ética, costumes e história oral. Ele funciona como um guia prático e filosófico, detalhando como os mandamentos divinos da Torá devem ser aplicados na vida cotidiana.

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