Você já reparou como o nome de Deus tem sido usado nos debates políticos, nas campanhas eleitorais e até em discursos que parecem querer impor medo? O próprio Papa Francisco alertou: Deus não precisa que ninguém O defenda, e Ele não quer que Seu nome seja utilizado para aterrorizar as pessoas.
Mas afinal, por que tantos grupos recorrem à manipulação do nome e da imagem de Deus? E que tipo de Deus está por trás dessas práticas? Será que essa utilização corresponde, de fato, à experiência autêntica do Deus cristão? Essas perguntas nos convidam a uma reflexão profunda sobre a relação entre fé, poder e verdade espiritual.
A manipulação do nome de Deus na sociedade
A religiosidade ainda é muito presente na vida das pessoas, especialmente em contextos onde o sagrado ocupa um lugar importante na construção do sentido da vida. No entanto, essa mesma força pode ser utilizada de forma indevida.
O uso do nome de Deus para defender interesses políticos, ideológicos ou econômicos revela uma distorção profunda da fé. Quando isso acontece, Deus deixa de ser mistério e passa a ser instrumento — um recurso para legitimar ações e discursos.
Essa prática não é apenas um erro religioso, mas também um risco espiritual, pois pode conduzir à injustiça e até à violência.
A origem do problema: imagens distorcidas de Deus
Por trás da manipulação do nome de Deus, existe uma imagem equivocada do próprio Deus.
Uma dessas imagens é a de um Deus autoritário e dominador, utilizado para justificar posturas rígidas e excludentes. Outra é a de um Deus “tapa-buraco”, visto como alguém que está à disposição para resolver problemas pessoais e atender interesses particulares.
Essas visões revelam uma compreensão mágica do divino, na qual Deus é reduzido a um objeto de controle humano. Nesse cenário, a fé deixa de ser relação e se transforma em instrumento de poder.
O Deus que não pode ser dominado
A tradição bíblica aponta para um caminho diferente. Ao revelar-se como “Eu sou aquele que serei”, Deus se apresenta como alguém que não pode ser reduzido, nomeado ou dominado.
Na mentalidade bíblica, dar nome significa exercer domínio. Por isso, o nome de Deus permanece, de certo modo, impronunciável: Ele não pode ser possuído nem manipulado.
O mandamento de não tomar o nome de Deus em vão está diretamente ligado a essa realidade. Ele não é apenas uma proibição moral, mas um convite a reconhecer o mistério de Deus e a não utilizá-lo para fins humanos.
O verdadeiro rosto do Deus cristão
Diante das distorções, surge a pergunta essencial: quem é, afinal, o Deus cristão?
A resposta não é única, mas se revela em diversas experiências:
- Deus libertador: É o Deus que liberta da opressão e da morte, conduzindo à vida.
- Deus que rejeita a injustiça: Os profetas mostram um Deus que se opõe à idolatria e à injustiça, denunciando toda forma de opressão.
- Deus que chama à ética: É o Deus que convida à vivência do amor, da justiça e do respeito ao próximo.
- Deus escondido: Em momentos de dor e sofrimento, Deus pode parecer ausente, mas continua sendo buscado e experimentado no silêncio.
- Deus de misericórdia: É aquele que escuta, acolhe e se aproxima, sendo invocado como um “Tu” próximo e compassivo.
Conclusão: cuidado com quem usa o nome de Deus
Nem todo discurso que invoca Deus é verdadeiramente religioso. Muitas vezes, por trás de um “Deus acima de tudo”, esconde-se uma imagem mágica, autoritária, que quer colocar o sagrado a serviço do poder humano. A verdadeira imagem de Deus – revelada na sarça ardente, no Êxodo, e plenamente em Jesus crucificado – não se deixa aprisionar. Ela nos liberta para o amor, a justiça e a misericórdia. Fique atento. E que possamos, como nos ensina o Padre Geraldo, buscar em Deus aquilo que nos ajuda a viver com mais humanidade e fé.
Referência
DEMORE, Geraldo. Por que manipulam o nome e a imagem de Deus. Entrevista concedida em material didático.


